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Michael Waldholz, colaborador da revista Forbes, escreve sobre a indústria da saúde e inovações médicas.

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Forbes, 31/07/2012
Uma das razões pelas quais a catástrofe da aids, que já dura 30 anos, continuará a fazer vítimas é que se está negligenciando uma confluência histórica de avanços na luta contra a doença.
Isso ficou claro para mim semana passada, na Conferência Internacional de Aids em Washington, que acontece a cada dois anos. Durante os seis dias do evento, mais de 25 mil participantes de todo o mundo escutaram pesquisadores, gestores, políticos e ativistas repetirem, como se seguissem um roteiro meticulosamente elaborado, uma mensagem surpreendente e profunda: as evidências científicas emergentes mostram que os novos tratamentos e estratégias de prevenção, se empregados ampla e conjuntamente, podem deter a marcha incansável do vírus.

A mensagem paralela, todavia, foi mais deprimente e menos surpreendente: se essas novas abordagens não puderem ser radicalmente ampliadas – com bilhões de dólares em financiamento – a oportunidade de deter a pandemia será desperdiçada.
“Estamos em um momento de definição”, disse Waafa El-Sadr, médica novaiorquina e pioneira em pesquisas. “Poderemos aproveitar essa oportunidade? Ninguém sabe”.
Para a maioria de nós nos E.U.A., a pandemia parece algo distante. Os tempos são difíceis e as tristes estatísticas da epidemia também são difíceis de compreender. Vejamos:
– A aids já matou 25 milhões; 34 milhões estão infectados.
– 1,5 milhão irão morrer este ano.
– 1,1 milhão de americanos são portadores do vírus.
– 20% destes não foram diagnosticados; uma porcentagem ainda maior não foi tratada.
Mas pelo menos por uma semana, as novas pesquisas, até então disseminadas longe do alcance do público, estiveram em todas as manchetes – em grande parte porque mesmo líderes cautelosos como o Dr. [Anthony] Fauci, que liderou a resposta americana ao HIV desde o início, saudou o potencial histórico dessa acumulação científica em seu discurso de abertura. A partir de então, ele próprio e outros o repetiram incessantemente.
“Meu objetivo foi relatar à conferência que agora contamos com ferramentas cientificamente comprovadas e não temos mais uma desculpa científica para deixar de agir”, disse o Dr. Fauci. “A implementação dessas ferramentas irá requerer um esforço extraordinário. Não vai acontecer espontaneamente”.
Eis um resumo das novas ferramentas e dos obstáculos que elas enfrentam:
Tratamento como prevenção. Por muitos anos os pesquisadores postularam que, ao tratar indivíduos infectados pelo HIV com terapia combinada, os níveis do vírus no organismo poderiam cair a tal ponto que a probabilidade da transmissão do vírus para outra pessoa estaria comprometida. Essa ideia agora se confirma: estudos lançados na reunião demonstraram que as pessoas com boa adesão ao tratamento, realizado com medicamentos da Bristol-Myers, Merck, Johnson & Johnson e Glaxo, podem reduzir quase completamente a transmissão do HIV.
Mas aqui reside o problema. Dos 34 milhões de infectados, apenas oito milhões iniciaram o tratamento – embora essa cifra represente o dobro da de poucos anos atrás, como resultado de US$ 16 bilhões em financiamento anual para a aids. Porém, dobrar o número das pessoas em tratamento até 2015, ou triplicá-lo em cinco ou dez anos, custará anualmente US$ 20 bilhões ou mais, um montante que poucos acreditam possa ser sustentado, dada a crise econômica global. Mesmo nos E.U.A., um em cada cinco portadores do HIV não sabe que está infectado, e menos da metade estão em tratamento.
Circuncisão. Na conferência de aids de seis anos atrás, eu estava entre os muitos que se supreenderam com um pequeno estudo, segundo o qual homens infectados pelo HIV que haviam sido circuncidados tinham menos risco de disseminar o vírus. Não se pôde evitar o ceticismo quanto ao estudo. Mesmo se verdadeiro, qual seria a probabilidade de que homens adultos se submetessem ao procedimento? Na reunião da semana passada, o descrédito foi varrido. Amplos estudos mostram que os homens circuncidados reduziram suas chances de infectar parceiros sexuais em 60%. O achado já impulsionou os E.U.A. a financiar 400 mil procedimentos em nações pobres desde o fim do ano passado, e destinar outros US$ 40 milhões à África do Sul para a realização de circuncisão voluntária em quase meio milhão de homens em 2013.
Os gestores internacionais da aids estabeleceram a ambiciosa meta de circuncidar outros 20 milhões de homens em 14 países pobres nos próximos quatro anos, reduzindo infecções antecipadas em 20% e economizando bilhões de dólares em tratamento. Mas apenas um em cada 12 homens já passou pelo procedimento. O objetivo “não será alcançado sem que haja um comprometimento maior do que visto até agora”, disse Mitchell Warren, chefe do grupo novaiorquino de advocacy, AVAC.
Transmissão vertical. Mais de dez anos atrás, os pesquisadores em saúde pública descobriram que tratar mulheres grávidas com um medicamento anti-HIV antes do parto reduziu pela metade o risco de transferir o vírus para o bebê. Agora, novos estudos mostram que, em Botsuana e na África do Sul, o risco pode ser reduzido para quase zero. Nos E.U.A., a ampliação da testagem e tratamento de gestantes resultou em nenhuma infecção pediátrica em anos. Mas, em outros lugares no mundo, várias centenas de milhares de crianças nascem com o HIV anualmente. A meta da ONU é eliminar quaisquer casos novos dentro de três anos, objetivo que requererá cerca de US$ 2,5 bilhões e um significativo alcance das mulheres grávidas.
“Sabemos como chegar a zero; a ciência mostrou o caminho”, disse Michel Sidibé, Diretor Executivo do Unaids. “A única coisa que pode nos deter agora é a indecisão ou a falta de coragem”. Isso soa familiar?
Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Nos idos de 1996, quando a terapia combinada primeiramente demonstrou controlar o vírus e permitiu que as pessoas infectadas sobrevivessem, alguns pesquisadores alegaram que os medicamentos poderiam ser usados para, efetivamente, prevenir infecções, uma ideia que necessitava ser provada e era então inconcebível, considerando-se o alto custo do tratamento. Um amplo estudo, divulgado no início do ano, mostrou que as pessoas em uso de um comprimido chamado Truvada, da Gilead Sciences, que combina muitos dos medicamentos dessa companhia, reduziram em 74% o risco de transmissão do vírus aos parceiros sexuais, enquanto houve adesão ao esquema diário. Entretanto, embora a Gilead tenha baixado o preço da medicação para países em desenvolvimento e as companhias genéricas possam torná-lo ainda mais barato, o custo e a logística tornam inviável sua utilização generalizada.
Além disso, há um debate em curso na comunidade de saúde sobre se essa abordagem constitui um uso adequado dos recursos. “Não é uma solução”, disse Dirceu Greco, chefe da resposta brasileira à aids. “Mesmo os estudos aqui apresentados mostram que metade dos inscritos não aderem ao esquema”. O Brasil tem estado na linha de frente da oferta de tratamento anti-aids a todos os que dele necessitam, em grande parte graças à fabricação de genéricos mais baratos dos medicamentos em fábricas estatais. Todavia, como nos E.U.A., uma ampla porção dos infectados ainda não conhecem seu status para o HIV. A estratégia de Greco é ampliar programas para alcançar essas pessoas – muitas das quais não acessam regularmente qualquer serviço de saúde – mediante um plano de distribuição de 8 milhões de testes aos serviços de saúde. Qual seria a probabilidade de o Congresso americano apoiar uma abordagem similar nos E.U.A.?
“Camisinhas são igualmente eficazes, como também mostra a ciência”, argumenta Greco, observando que o Brasil distribui milhões de preservativos por ano, fabricados com borracha nativa da Amazônia. Apesar de sua eficácia, um programa similar nos Estados Unidos não seria provável, dada a oposição conservadora.
A ciência para criar uma vacina, busca que já dura três décadas, ainda está nos primórdios, embora novas ideias estejam ganhando impulso. Na impossibilidade da imunização de pessoas contra o HIV, é compreensível que os líderes da reunião tenham saudado o poder das armas listadas acima.
Ao anunciar o potencial para controlar o HIV e algum dia acabar com a pandemia, esta foi uma das mais bem-sucedidas conferências de aids em anos. Entretanto, como disse um ativista, “não estamos celebrando o sucesso. Estamos comemorando a oportunidade do sucesso”.
Confira a matéria em inglês aqui:

 

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