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Uma agenda mínima comum entre LGBTs.

Professor Marcelo Cerqueira – Presidente do GGB

Professor Marcelo Cerqueira – Presidente do GGB

Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia –

SALVADOR, BAHIA, 14/12/16 – ÁS 15H04 – Não existem pesquisas geográficas que consigam expressar o tamanho da população de gays, lésbicas, travestis e transexuais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) realizou um estudo em 2010, publicado em 17 de outubro de 2012, e constatou 60 mil casais LGBT no Brasil. Salvador ficou em terceiro lugar com 1.595 uniões.

Nós, do movimento LGBT nacional, acreditamos que 10% da população seja constituída por homossexuais, de acordo com o relatório sobre sexualidade masculina publicado nos Estados Unidos da América, em 1948, pelo médico pesquisador Alfred Kinsey, (Sexual Behavior in the Human Male).

Este estudo é revelador de que somos milhões, estamos em todos os lugares, ocupamos profissões diferentes, vivemos de maneira diferente, permeamos todos os tecidos sociais, classes, cor de pele, somos iguais e ao mesmo tempo somos muito diferentes um dos outros.

Não é tarefa fácil colocar pessoas ou comportamentos em caixinhas, porque só a pessoa pode entender-se como ela é, vive e se relaciona com a sua sexualidade. Mas vamos fazer um esforço aqui. Somos gays, lésbicas, sapatona, trasvestis, homem e mulher trans e intersexuais.

Dentro dessas categorias encontramos os grupos de negros, negras, pobres, ricos, magros, gordos, ativos, passivos, suburbanos, favelados, conservadores, liberais, anarquistas, malhados, transformistas, gays cisgênero com identidade masculina, mulher lésbica cisgênero, homem trans cisgênero, idosos, novinhos, bichas, andróginas, bofinhas, catadores, sem-terra, sem teto, ativistas, não ativistas, e tantas outras categorias existentes nas sombras e nas luzes das cidades, que se relacionam com funções, sistemas, elementos físicos, linguísticos, mentais desenvolveram estrutura de realidade independente. Compreender esse universo é necessário olhar por dentro para perceber características desses sistemas e os seus estímulos junto aos homossexuais no mundo moderno, na rapidez que as coisas acontecem nas metrópoles.
A pós-modernidade trouxe consigo as novas tecnologias avançadas de comunicação de massa como a internet. Antes, o indivíduo vivia apático, isolado, não conhecia outras culturas modernas, não havia meios eficientes para a troca de experiências culturais. A representação social e a relação indivíduo sociedade se transformou em meio à crise das instituições de segurança, trabalho, saúde e educação, os indivíduos tinham de interagir. Assim, cada um passa a representar-se sem a necessidade de outorgar um poder simbólico a uma pessoa, partido político, ou políticos, entidade ou mesmo órgão público.
A internet para os LGBT está como a corda para o pau do berimbau: esse universo de informações, imagens e conceitos mudou o estilo de vida, considerando que após tantos séculos sem poder falar, se posicionar, interferir reivindicaram para si a sua própria representação social, cultural e política de forma intensa.

O mundo moderno e as tecnologias de informação estimulam uma atitude relacionada à cultura, às cidades, à moda, comportamento, e uma liberdade total ao corpo. Com isso, acesso a tantos conteúdos, o que é muito bom, o indivíduo começa a perceber que existem outras identidades de gênero além das homonormativas clássicas (mulher lésbica cisgênera, casada, classe média, branca).
As identidades de gênero clássicas sólidas convivem nos dias de hoje com as identidades fluidas e líquidas. Convivência nem tão harmoniosa, mas essa fluidez indica que o indivíduo pode dispor do seu corpo como quiser, assumir uma identidade momentânea para algo que em tese não teria tanta importância, isso talvez seja. É como trocar de rouca. Existem mais de trinta identidades de gênero, muitas reivindicam espaço de direito, dentro e fora do universo LGBT.
Diante de uma população absolutamente marcada pelas diferenças, qual seria uma agenda comum? Vamos falar dos direitos humanos e de expressões de violência. Sem dúvida, vivemos nesse momento um deserto em direitos e um mar de violência, com requinte de crueldade.
Dos crimes praticados contra os LGBTs, muitos revelam brutalidade sem precedentes. Na Bahia, de janeiro até novembro, são mais de trinta homicídios. A sociedade ainda rejeita os LGBTs, e observa tudo isso com indiferença, seja por dificuldade de compreender tantas identidades ou por preguiça mental. Mesmo com os avanços sociais, as restrições ao afeto LGBT em público são muito reincidentes, as vezes seguida de violência física.

Esse aspecto que seria, em tese, o mais considerável para uma agenda mínima com a população LGBT em geral, não é suficiente. Isso porque o impacto da violência e alijamento de direitos fundamentais sofrido por um homossexual morador do Bairro do Calabar não chega com o mesmo impacto ao homem gay cisgênero, branco, classe média, casado morador do Morro do Gato.

O gay negro, pobre morador do Calabar, não possui os mesmos direitos que o outro que desce a ladeira de carro fechado com ar condicionado e olha com aquele olhar de desprezo de Mary Strip, personificando Miranda, em “O diabo veste Prada”.
O gay com traços feminino do Calabar acredita que não tem direitos porque não lhe dão o direito sequer de existir. Se ele não existe, não é portador de direitos. Para ter direitos, é preciso dar direitos a essas pessoas LGBT que vivem em condições desumanas e miseráveis na cidade de Salvador. Mas o que seria um ponto da agenda? Talvez o direito à vida e a ter direitos de verdade, sim.

Quando pensamos em vida, pensamos em viver. Isso possui vários significados: viver, existir e transitar com liberdade sem passar por constrangimentos por expressar uma forma de amor. Desse modo, uma agenda comum é a ocupação dos espaços públicos da cidade com dignidade. É na cidade que as identidades são construídas e vividas. Ocupar os espaços públicos em momentos especiais como as Paradas é um momento que a cidade percebe a existência dessa variada população que de forma diferente sofre impacto das intolerâncias. Mas, mesmo diante desse momento dionisíaco, aquele gay que citei acima, não frequenta, ainda faz dessa recusa motivo de conversa entre os seus pares.

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