Celebramos neste segundo ano de pandemia do Covid-19, quatro décadas de existência e resistência. Refiro-me a duas comemorações:

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Franclin Correia da Rocha / foto arquivo pessoal do autor.

Por:

*Franclin Correia da Rocha, especial para o site.

Salvador,08 de Abril 2021- A epidemia da Aids e da fundação do primeiro Grupo Gay da Bahia (GGB) e do Brasil, quiçá da América Latina. Assim, como os primeiros movimentos de luta contra Aids no mundo, o grupo foi composto por civis homossexuais, que se assemelhavam em um objetivo comum, a luta por direitos, sobretudo por suas existências.

O boom da epidemia na década 80 com os primeiros casos de pessoas infectadas pelo vírus do HIV no Brasil, coincide com as ações de combate e denúncia a LGBTfobia em Salvador com a publicação do caso no jornal LAMPIÃO DA ESQUINA[1].

O grupo organizado tinha também como ação a prevenção com uso da camisinha masculina, tecnologia que a Igreja Católica se opunha na época da epidemia, pois  considerava as práticas sexuais de homossexuais promíscuas e inadequadas, sugerindo então a abstinência sexual. Essa forma mais ampla e única de uso da tecnologia evitava a contaminação, aumento de casos e mortes.

O que diferencia as pessoas acometidas ao HIV/AIDS são as diferentes culturas, contextos sociais e políticos. Os casos nos EUA de populações primeiramente em homens com relacionamentos  homossexuais, depois lésbicas, mulheres e homens cis, pessoas brancas. Sendo que na Bahia, particularmente em Salvador, esta população é negra.

De lá pra cá muitas conquistas foram produzidas com o avanço da ciência, tecnologia, de mais políticas públicas, populações vulneráveis ao vírus do HIV/aids e que são vítimas da  LGBTIAfobia.  

Exemplos, como a criação do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais em 1986. No ano de 2006 a quebra de patentes dos medicamentos foi de extrema importância para o Brasil ter acesso aos medicamentos como – o Efavirenz-, uso de  tecnologias de profilaxias pré e pós exposição (Prep e Pep), teste de vacinas antiaids.

Outra grande conquista foi acriminalização da homofobia e transfobia com a lei 7.716 enquadrado em crime de racismo em 2019 e além do direito de união homoafetiva “(homem e mulher)” previsto no artigo 1723/17 do Código Civil.

Conquistas e retrocessos foram promovidos como rebaixamento do Departamento de IST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde para o setor chamado Departamento de Doenças de Condições e Infecções Sexualmente Transmissíveis fazendo com que o setor perdesse sua autonomia para execução de políticas.

Uma forma de retirada do termo AIDS (traduzida como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – SIDA) do nome do departamento, como forma de “tentar” colocar em esquecimento algo grave, que é a epidemia do vírus, existente no Brasil e no mundo”.

O programa criado pelo governo federal “Brasil sem homofobia” de 2011, foi suspenso, deslegitimando o direito e respeito aos direitos humanos, o problema com a discriminação e violência que gera a homofobia.

Evidenciando que o ativismo desde sempre pelas causas LGBTQIA e de HIV(Vírus da Imunodeficiência) continua resistindo a estes retrocessos, se articulando, engajando, criando novas estratégias de para garantir seus direitos e suas existências mesmo em tempos tão atípicos como este que estamos vivendo.

E o reconhecimento desses movimentos sociais em prol de mais dignidade, humanidade e respeito, serve como princípio importante de força coletiva que cria possibilidades de transformações da sociedade como todo. Por isso, a relevância  como proposta de homenagear e celebrar, dar visibilidade, comemorar, rememorar duplamente estas quatro décadas de vitórias.

*Franclin Correia da Rocha,  natural de Salvador (BA), bicha preta, de pela clara, periférico, arthivista, educador, produtor, performer. Possui Especialização em Arte Educação Cultura Brasileira e Linguagens Artísticas Contemporâneas (2020) pela Universidade Federal da Bahia, O teatro como prática educativa na abordagem dos temas gênero e sexualidade. Possui graduação em Licenciatura em Teatro (2010). Pesquisador da Performance da cena pós-coquetel, cena queer, raça/cor, HIV/aids. Atento as escrevivências, subjetividades, afetividade, posithividades de corpos subalternos, dissidentes.


[1] O Lampião da Esquina foi um jornal homossexual brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981. Nasceu dentro do contexto de imprensa alternativa na época da abertura política de 1970, durante o abrandamento de anos de censura promovida pelo Golpe Militar de 1964. Acesso em 21 de abril de 2021: http://www.grupodignidade.org.br/projetos/lampiao-da-esquina/

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