O fim do santinho, o começo da moralidade

Mulher cai em buraco escondido por santinhos perto de local de votação em SalvadorImagem: Reprodução/TV Bahia GGB protocola no TRE-BA pedido para proibir “santinhos” em Salvador: “Sem santinho, não há boca de urna. E a ‘Ronda Cidade Limpa’ é passar pano no crime” Entidade defende que a proibição da impressão é a única forma eficaz de combater a compra de votos, proteger idosos e pessoas com deficiência e impedir que a cidade vire lixeira a cada eleição Salvador, 3 de outubro de 2026 -O Grupo Gay da Bahia (GGB), uma das mais antigas e atuantes organizações de defesa dos direitos humanos do Brasil, protocolou nesta sexta-feira, no Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), um requerimento que propõe a proibição da confecção, impressão e distribuição de “santinhos”, cartazes, filipetas e materiais congêneres em Salvador. O documento, assinado pelo Diretor Executivo do GGB, Marcelo Cerqueira, foi endereçado ao presidente do TRE-BA, desembargador Maurício Kertzman Szporer, com cópias à Corregedoria Regional Eleitoral, ao Ministério Público Eleitoral, ao Ministério Público do Estado da Bahia -Núcleo Eleitoral, na pessoa do coordenador Dr. João Paulo Schoucair, e à Câmara Municipal de Salvador. A incoerência que o GGB quer corrigir na origem. O argumento central do requerimento é a defesa da moralidade eleitoral: o santinho é o veículo material da boca de urna e da captação ilícita de votos. “Sem santinho, não há boca de urna; sem boca de urna, não há pagamento nem compra de votos. A lei já proíbe o crime, mas tolera o seu combustível. É essa incoerência que queremos corrigir na origem”, afirma Marcelo Cerqueira. O eleitor também é vilão: quem pede, empurra o candidato ao crime. Em um trecho de leitura dura, o requerimento aponta um personagem que a narrativa oficial prefere ignorar: o próprio eleitor que cobra o santinho. “É preciso dizer a verdade que incomoda: existe eleitor que faz pedidos estranhos e ilegais -exige o papelzinho na mão, cobra o ‘agrado’, negocia o voto como quem negocia mercadoria. Esse eleitor é o que empurra o candidato para a ilegalidade. Enquanto houver quem peça, haverá quem imprima; enquanto houver quem aceite, haverá quem compre”, afirma Cerqueira. “Não se trata de absolver o político. Trata-se de reconhecer que a compra de votos é um pacto de dois lados -e que a proibição do papel quebra esse pacto pelos dois lados.” Observando ainda que o eleitor não é tirano, chantagista e terrível nessa relação com o candidato, fazendo com o que muitos desenvolvam traumas e sequelas para sempre. O eleitor também é vilão: quem pede, empurra o candidato ao crime. Em um trecho de leitura dura, o requerimento aponta um personagem que a narrativa oficial prefere ignorar: o próprio eleitor que cobra o santinho. “É preciso dizer a verdade que incomoda: existe eleitor que faz pedidos estranhos e ilegais – exige o papelzinho na mão, cobra o ‘agrado’, negocia o voto como quem negocia mercadoria. Esse eleitor é o que empurra o candidato para a ilegalidade. Enquanto houver quem peça, haverá quem imprima; enquanto houver quem aceite, haverá quem compre”, afirma Cerqueira. “Não se trata de absolver o político. Trata-se de reconhecer que a compra de votos é um pacto de dois lados – e que a proibição do papel quebra esse pacto pelos dois lados.” E aqui o requerimento faz uma ressalva necessária, para que a crítica não se transforme em injustiça: o eleitor não é tirano, não é chantagista, não é um monstro nessa relação com o candidato. Ele é, muitas vezes, a vítima de um sistema que ensinou que o voto tem preço, que a política é troca e que o “agrado” é a única forma de ser ouvido. Mas a verdade incômoda permanece: essa relação tóxica – em que um pede e o outro cede, uma cobra e o outro se submete – deixa traumas e sequelas para sempre, também no candidato, que se vê obrigado a negociar a própria dignidade para não perder a disputa. Não há vencedores nesse pacto: há quem compre a consciência e há quem venda a alma. A proibição do papel liberta os dois lados. “Ronda Cidade Limpa” é passar pano. O GGB também dirige crítica direta à campanha “Ronda Cidade Limpa”, lançada pelo próprio TRE-BA em 25 de setembro para recolher material de propaganda nas ruas no dia da votação. Para a entidade, a iniciativa -que atua às 7h, 11h e 15h em Salvador -é o equivalente institucional a passar pano no crime: “Recolher o santinho depois que ele suja a rua não combate a boca de urna; apenas esconde a sujeira que o crime produziu. É como varrer a cena do crime em vez de impedir o crime. A ‘Ronda Cidade Limpa’ cuida do efeito, não da causa. Nós queremos atacar a causa: a impressão do papel”, diz o documento. Cerqueira argumenta o exemplo da eleição Francesa “Não existe boca de urna, gente na rua assediando, lixo na rua e o voto secreto é extremamente levado a sério” disse. A dimensão humana: o voto não pode ser prova de resistência física. A proposta tem uma dimensão humana que atravessa todo o documento. Pessoa com mobilidade reduzida, Cerqueira descreve a batalha diária de percorrer as calçadas desniveladas de Salvador e o temor de idosos e pessoas com deficiência de sair de casa no dia da eleição. “O voto não pode ser uma prova de resistência física. Nenhuma pessoa deve escolher entre o direito de votar e a segurança do próprio corpo”, diz. Os números dão a dimensão do drama: 7,3% da população brasileira possui algum tipo de deficiência -14,4 milhões de pessoas, sendo 1.094.632 na Bahia (Censo Demográfico 2022, IBGE). E a história já registrou o pior desfecho possível: uma eleitora idosa de Bauru (SP) morreu em 2012 após escorregar em um monte de santinhos perto do local de votação, sofreu fratura na bacia e faleceu três dias depois por complicações do trauma -caso relembrado pelo próprio TRE-SP neste mês. A cidade vira lixeira: os fatos que os jornais registraram As evidências
Prazer, Prevenção e Liberdade

Imagem dos produtos Saúde que começa onde ninguém tinha coragem de olhar: O presente na Parada LGBT que fala de prazer, prevenção e liberdade Marcelezza Cerqueira Olá, queridos leitores! Sentiram minha falta? Eu estava com saudades deste espaço. Andei sumido porque estava em uma missão muito especial, que me consumiu o tempo inteiro. Mas agora, como dizia a inesquecível Cármen Miranda, “voltei pro morro, onde está o meu cachorro, a minha chinela, eu quero sambar com elas”. E voltei trazendo um presente que recebi durante a Parada do Orgulho LGBT da Bahia, no dia 6 deste mês: um mimo incrível da Meke Life, um kit proctológico de altíssimo nível. O kit é completo e pensado com detalhes que me surpreendeu. Vem com sabonete líquido de 100 ml para higienização e cuidado da região anal (o Protect Wash), bisnaga com aplicador de hidro-enema, um bico adaptador de chuca que serve em qualquer garrafa plástica com água – o que mais me encantou – adorei um lenço umedecido caixa com 20 unidades exclusivo para limpeza e higienização da região, o Wipe Wash, que tem ácido hialurônico e Biosaccharides Active, com ação hidratante e calmante. Acho que poderia ser em quantidades como os demais para bebê, caixa com 100 unidades e o sabonete ao invés de 100 deveria ter 210ml, como são os outros. O lencinho, aliás, faz uma espuma agradabilíssima no uso. Tudo isso agora disponível em farmácias e aplicativos de compra, sem constrangimento, sem sussurro no balcão como antes, quando esse assunto era envolto em muito tabu. Agora, o tabu acabou, e eu escrevo lindo aqui no nosso BNews, sem vergonha de falar daquilo que, dizem, Deus não teve coragem de criar. E é aqui que mora a beleza da coisa: esses produtos acabam com aquele tabu que sempre cercou essa região e seus cuidados. Estamos no início de novos tempos modernos, em que aceitação, cuidado e prevenção caminham juntos, inclusive nas questões mais particulares do nosso corpo. Esse cuidado importa não só pelo conforto em si, prazer, mas pela prevenção do câncer de ânus, uma pauta de saúde que raramente ganha espaço nas conversas públicas. Quando esse assusto surge sai pela tangente do “lá ele” e o assunto acabo. É verdade ou não é – é verdade sim! Seja dito, com a autoridade de quem vive isso. Em mais de 30 anos de ativismo, sobretudo na saúde, me deparei apenas uma vez com alguém sofrendo de câncer nessa região. Sem dúvida, os gays não são imunes, mas é verdade que eles fazem do cuidado um hábito. Acredito, pela minha experiência que as gays desenvolvem menos câncer nessa região do que as outras pessoas, o que pode ser pelo cuidado. Uma amiga minha, a bióloga Josane Calina, me disse há muito tempo uma frase que eu nunca esqueci e é uma tecnologia de prevenção: “abriu, deixou entrar, tem que tratar”. Esse conceito serve para todo mundo, não é privilégio de grupo específico. Acredito que a diferença é que nós, da comunidade, conhecemos bem o nosso corpo. O contato quase diário com essa região nos tornou, sem falsa modéstia, especialistas em nós mesmos. Esse trato ressignificou o órgão recebendo o nome de “Edi” usado em alusão amplamente na comunidade. Quem conhece o próprio corpo cuida melhor dele, identifica antes o que não vai bem e procura ajuda a tempo. Por isso, mais um auxílio à prevenção como este kit é uma ação muito boa. E vai além do produto: é pedagogia embalada em espuma perfumada. É dizer a milhares de pessoas que cuidar do próprio prazer não é vergonha, é saúde, dignidade, cidadania. Fica aqui, portanto, minha provocação final, feita com o carinho de sempre: o SUS deveria incluir um kit como este em sua estratégia de prevenção, na promoção da saúde sexual dessa comunidade, inicialmente como pedagogia. Há quem já esteja fazendo isso como política pública aqui na cidade: o Centro de Referência Vida Bruno, da Prefeitura, por meio da Secretaria de Reparação, está distribuindo gratuitamente, além de preservativos, gel lubrificante e kit de chuca para higiene íntima, um upgrade na prevenção e no cuidado. Essas ações de empresas e órgãos públicos são prevenção que respeita a vida real das pessoas, no território, na periferia, na intimidade de cada corpo prevenção que funciona de verdade. Saúde, não é apenas ausência de doença; é liberdade de ser. E liberdade, às vezes, começa exatamente onde ninguém tinha coragem de olhar. Um beijo com espuma de lencinho, e até a próxima! Marcelezza Cerqueira Estrategista da Diversidade, Escritor e Gestor Público
23ª Parada do Orgulho LGBT+ Programação

23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia anuncia programação completa: Semana Cultural da Diversidade transforma Salvador em capital do orgulho, da saúde e da memória IX Semana Cultural da Diversidade de Salvador movimenta a cidade entre os dias 1º e 6 de setembro, com literatura, fotografia, fé, esporte e cultura, culminando no cortejo histórico de 13 trios no Circuito Barra/Ondina SALVADOR, BA – O Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga organização de defesa dos direitos civis de pessoas homossexuais da América Latina, fundada em 1980, realiza entre os dias 1º e 6 de setembro a IX Semana Cultural da Diversidade de Salvador e a 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia. Sob o tema “A Vergonha Adoece. O Orgulho Cura!” – um manifesto do orgulho como política de saúde coletiva -, o evento reafirma a capital baiana como o maior palco de direitos humanos, diversidade e saúde do Norte e Nordeste do país. A programação começa na terça-feira, 1º de setembro, no Pelourinho, coração da primeira capital do Brasil. Às 12h, o GGB lança o guia de turismo “Pelourinho: Tudo é Verdade”, um percurso pelas memórias LGBT+ de Salvador que resgata personagens históricos como Xica Manicongo, a primeira travesti documentada do Brasil (século XVI), Felipa de Sousa, processada pela Inquisição em 1592, e Luiz Delgado, degredado por sodomia em 1669. Equipado com QR Codes nas praças do Pelourinho, o guia remete ao lema de Jorge Amado e transforma o Centro Histórico em um arquivo vivo de resistência. No mesmo dia, abre a exposição fotográfica “Imagem do Orgulho”, na sede do GGB, com fotos 40×60 das paradas realizadas. Na sexta-feira, 4 de setembro, a partir das 15h, a sede do GGB recebe o Caruru da Diversidade, em homenagem a Cosme e Damião e aos Êres, com entrada solidária: 1kg de alimento para o programa Bahia Sem Fome. O sábado, 5 de setembro, é dedicado à literatura e à fé. Às 17h, na Livraria Terras Libres (Cine Glauber Rocha), acontece o Encontro de Narrativas Insurgentes — Salão Literário da Diversidade, com o lançamento do livro “Amor Sem Correntes: Um Manifesto pela Decolonialidade do Afeto”, do historiador e jornalista Marcelo Cerqueira, e do livro “Luiz Mott 80 anos Bem Vividos”, do antropólogo Luiz Mott, com organização de Marcelo Oliveira, Marcelo Cerqueira e Salete Maria. Às 18h, o Atraques dos Ojás percorre o caminho da Parada, do Porto ao Farol da Barra, amarrando tiras de pano branco da paz, sob a condução de lideranças do Candomblé. O grande dia chega no domingo, 6 de setembro, no Farol da Barra. Às 7h, o aulão “Dançar pela Vida” abre a manhã em alusão ao Setembro Amarelo, celebrando valores de amor, respeito, acolhimento e diversidade. Das 11h às 15h, o Palco Luiz Mott 80+ Bem Vividos reúne shows e performances com Scarleth Sangalo, Michele Lorem, Jocimar Ramos, Suzzy Baby Doll, Saphyra Luz, Sissy Zeta Jones, Dicca Rios, Joanne Labixa, Aloma (cover de Elza Soares), Brown Cover e Larissa Anjos, entre outras atrações, além das bandas Sylvia Patrícia, DJ Dubai e os Habibis, Moon Boy e Orisum. Às 15h30, o Trio Oficial Dragão Luiz Mott 80 Anos lidera o cortejo de 13 trios pelo Circuito Barra/Ondina, com concentração a partir das 12h no Farol. O trio oficial do GGB tem como padrinho o professor Luiz Mott e como madrinha a professora Salete Maria, com som dos DJs Prettin D’Kingo e Binho Gomez. A cerimônia de abertura contará com uma voz trans, seguida do Hino Nacional, interpretado por Larissa Anjos, e do Hino ao 2 de Julho, com Denni. Completam o desfile os trios da Diversidade, Dendê EC, Dion Santiago, A Dama do Pagode, Trio Movimentar, Torcida LGBTricolor, Torcida Orgulho Rubro Negro, Fórum Baiano LGBT, Chocolate Batidão, Mudança do Garcia, Ivanildo e GGL. SERVIÇO IX Semana Cultural da Diversidade de Salvador e 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia Tema: “A Vergonha Adoece. O Orgulho Cura!” Quando: 1º a 6 de setembro de 2026 (Parada no domingo, 06/09) Onde: Pelourinho, Livraria Terras Libres, Porto e Farol da Barra Cortejo: Circuito Barra/Ondina – concentração às 12h, saída às 15h30 Realização: Grupo Gay da Bahia (GGB)
O Pelourinho como arquivo vivo

Foto meramento ilustrativa É Tudo Verdade II O Pelourinho, coração pulsante da primeira capital do Brasil, é frequentemente apresentado sob a lente do barroco colonial, das igrejas recobertas de ouro e do casario multicolorido. No entanto, sob as pedras irregulares do “pé de moleque”, subjaz uma cartografia de memórias reais: a das dissidências sexuais e de gênero que, desde o século XVI, desafiaram as normas da Coroa e da Igreja. Este guia propõe uma leitura decolonial do Centro Histórico, compreendendo-o como um arquivo vivo de resistência. Este Guia é embasado no lema de Jorge Amado, “Tudo é verdade”. Esta expressão sintetiza o propósito desta obra: narrar vidas reais, histórias verdadeiras de pessoas que existiram e resistiram no Pelourinho. “Tudo é verdade” é um convite a reconhecer que estas memórias são fatos históricos reais, não ficção. Este é um Guia Turístico interativo equipado com tecnologia QR Code, permitindo uma ponte entre o espaço físico e a profundidade digital. Historicamente, o Pelourinho foi o instrumento da punição pública, onde o Estado, e a Inquisição, buscavam punir os que fugiam às suas regras, ou mesmo domesticar corpos negros, indígenas e dissidentes. Contudo, onde houve repressão, houve também a invenção de modos de vida. Este documento não é apenas um roteiro turístico; é um ato de restituição memorial. É fundamental destacar a distinção metodológica deste guia: apresentamos personagens com vasta documentação histórica (como Xica Manicongo, Felipa de Sousa, Diogo Botelho, Luiz Mott, Vivaldo da Costa Lima e Carlos Bastos) e figuras da cena cultural e ativista contemporânea (como Júlio Cesar Habib), essenciais para a história viva do território. “Narrar estas vidas é desenterrar a verdade que a história oficial tentou sepultar sob o peso do mármore e do incenso.” SOBRE ESTE GUIA – REALIZAÇÃO E CONTEXTO Este Guia Turístico é parte integrante da 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia, que será realizada em 6 de setembro de 2026 (domingo), no Farol da Barra, em Salvador, com o tema “Do Coração de Salvador para o Mundo”. O guia também integra a programação da 29ª Semana da Diversidade Cultural de Salvador. O título desta obra, “Tudo é Verdade”, remete ao célebre lema de Jorge Amado. O guia propõe-se a narrar histórias reais e verdadeiras da comunidade LGBTQIAPN+ do Pelourinho, sem conotação sexual, focando na construção da memória histórica e cultural da cidade. A realização deste projeto é do Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga instituição de defesa dos direitos LGBTQIAPN+ da América Latina, fundada em 1980 pelo antropólogo Luiz Mott. O Guia conta com o apoio dos demais participantes e parceiros institucionais do evento, unindo esforços para a preservação e divulgação de parte da nossa história, que até aqui esteve silenciada. O propósito desta obra é apresentar a memória LGBTQIAPN+ do Pelourinho como parte essencial da celebração da diversidade cultural de Salvador, conectando o patrimônio histórico à luta contemporânea por direitos. Este Guia é um material de Divulgação e Educação Patrimonial, a ser distribuído durante a programação oficial da Parada e da Semana da Diversidade, como uma estratégia que reafirma o compromisso com a visibilidade e o orgulho de nossas trajetórias. 3. COMO USAR ESTE GUIA E O SISTEMA QR CODE Para transcender a observação superficial, este Guia utiliza o Método ELI10 (Explicação em Camadas). Cada personagem ou localidade é analisado através de dez níveis de profundidade, permitindo que o visitante escolha o grau de imersão – do fato histórico imediato à ressonância simbólica contemporânea. O Guia Digital: Cada ponto do roteiro está sinalizado com um QR Code exclusivo. Claro, no Pelourinho.
É Tudo Verdade

Imagem meramente ilustrativa Roteiro turístico e etnográfico pelas vozes e memórias LGBT+ que as ruas do Centro Antigo de Salvador guardam em silêncio. Resumo rápido sem QR Code Salvador guarda uma história LGBT que remonta aos primeiros séculos da colonização. Documentos da Inquisição e outras fontes revelam homens e mulheres acusados de sodomia, relações homoeróticas e transgressões de gênero, registrando amores, encontros, perseguições e resistências. O roteiro recupera essa memória em seis pontos do Centro Histórico, associados a personagens documentados principalmente nos séculos XVI e XVII. O Pelourinho como arquivo vivo É Tudo Verdade II REALIZAÇÃOProf. DR.Luiz Mott, Professor Aposentado de Titular de Antropologia-Fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB).Marcelo Cerqueira – Presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB) Jaime Nascimento, professor convidado. CONTATOSLuiz Mott – WhatsApp: 71 98746-4830Marcelo Cerqueira – WhatsApp: 71 99989-4748Grupo Gay da Bahia (GGB) – Rua Frei Vicente, 25 – Pelourinho, Salvador PARADA 1 — MOSTEIRO DE SÃO BENTO FREI LUIZ MOREIRA — século XVII Frei Luiz Moreira era monge beneditino, tinha 42 anos e ocupava posição de grande prestígio dentro da Igreja: era letrado, pregador, Examinador das Ordens Militares e Abade Primacial da Ordem de São Bento. Residiu durante três anos no Mosteiro de São Sebastião, na Bahia. Sua história chegou até nós porque confessou perante a Mesa do Santo Ofício de Lisboa práticas homoeróticas com oito parceiros, quase todos jovens em torno dos vinte anos. Entre eles estava Jorge, mameluco de 18 anos e criado do abade, com quem manteve relações durante quatro ou cinco meses. Moreira descreveu aos inquisidores encontros sexuais em sua própria cela, durante o dia e à noite, e também nas fazendas pertencentes ao mosteiro. Outro parceiro foi Manoel de Bairros, estudante de 18 anos, com quem a relação teria durado cerca de um ano. Houve ainda Frei Manoel Cabral, monge de 20 anos, natural do Rio de Janeiro. O depoimento revela que o Mosteiro de São Bento não era apenas cenário religioso: suas celas e propriedades aparecem também como espaços de encontros homoeróticos. O próprio abade declarou que, além da sodomia, praticava com seus parceiros masturbação e “coxeta”. Sua trajetória permite penetrar numa dimensão raramente lembrada da vida conventual da antiga Salvador: desejos e relações sexuais conviviam com a disciplina religiosa e podiam cair sob a vigilância do Santo Ofício. LUIZ DELGADO — 1690 Luiz Delgado era violeiro e estanqueiro de tabaco e vivia em Salvador. Seu nome aparece associado ao soldado José Nunes, morador na região da Fonte de São Francisco, também conhecida como Fonte do Sapateiro. Em 1690, os dois ficaram ligados a um episódio ocorrido nos fundos do Mosteiro de São Bento, transformando esse lugar num dos pontos expressivos da geografia sodomítica da cidade. Segundo a documentação reunida por Luiz Mott, testemunhas observaram que Luiz Delgado e José Nunes “saíram mui suados” de trás do muro do convento, numa parte arruinada e coberta de arvoredo. A circunstância despertou suspeitas porque ambos já carregavam, segundo a fonte, “má fama” de cometer o chamado pecado nefando. A documentação registra ainda que corria em Salvador a notícia de que José Nunes recebera um anel de ouro de seu “amante benfeitor” e de que Luiz Delgado pagava o aluguel da casa onde o soldado morava. Presentes e ajuda econômica sugerem vínculos que ultrapassavam um encontro ocasional. O episódio mostra também como determinados espaços urbanos favoreciam encontros discretos. O muro arruinado e o arvoredo nos fundos de São Bento ofereciam relativa proteção aos olhos públicos. Muito antes dos modernos espaços de sociabilidade gay, os documentos já permitem reconstruir uma cartografia homoerótica de Salvador. 7.1. Camada 1: Os Fatos Violeiro português degredado para a Bahia por sodomia. Em Salvador, sua habilidade musical permitiu-lhe transitar entre diferentes estratos sociais, apesar do estigma de “degredado”. 7.2. Camada 2: O Degredo como Punição A Bahia era usada como depósito de “indesejáveis” da metrópole, criando uma sociedade de fronteira onde a norma era constantemente negociada. 7.3 a 7.10 Camadas 3 a 10: O Violão como Metáfora Sua vida ilustra a melancolia do exílio e a busca por pertencimento em uma terra estranha, onde a arte era um dos poucos espaços de manifestação da sensibilidade dissidente. PARADA 2 — IGREJA DA AJUDA PAULA DE SIQUEIRA — 1591–1592 Paula de Siqueira tinha cerca de 40 anos, era cristã-velha e morava na Rua de São Francisco. Compareceu perante a Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia, em 1591, e confessou sua relação com Felipa de Sousa, mulher casada que vivia perto da Igreja da Ajuda. Segundo Paula, Felipa começou a lhe enviar cartas de amor, recados e presentes, acompanhados de beijos e abraços. Essa aproximação durou cerca de dois anos. A própria Paula declarou ter compreendido que Felipa nutria por ela uma “ruim pretensão”, expressão inquisitorial que revela o olhar repressivo lançado sobre o desejo entre mulheres. Em certo domingo, Felipa levou Paula para dentro de sua câmara e fechou a porta. Ali mantiveram relações sexuais várias vezes pela manhã e novamente depois do jantar. O depoimento descreve explicitamente o contato entre seus corpos e registra que Paula assumia a posição que os inquisidores identificavam como masculina. É uma das descrições mais detalhadas de relações sexuais entre mulheres preservadas pela documentação inquisitorial do Brasil colonial. Paula também foi acusada pelo padre Baltazar de Miranda de ter lido o Livro de Diana, de Jorge de Montemayor. Em 20 de janeiro de 1592, foi recolhida à prisão juntamente com outras mulheres. Cinco dias depois, sua sentença foi publicada na Sé da Bahia diante do bispo, das autoridades e de “muita gente do povo”. PARADA 3 — LADEIRA DA MISERICÓRDIA XICA /” FRANCISCO” MANICONGO — 1591 Francisco Manicongo era uma pessoa africana escravizada por Antônio Pires, sapateiro que morava “abaixo da Misericórdia”, em Salvador. É nesse ponto preciso da cidade que a documentação inquisitorial de 1591 permite localizar uma das personagens mais discutidas atualmente na história LGBT brasileira. Um denunciante declarou ao Santo Ofício que Manicongo tinha entre os africanos da cidade fama de ser “somítigo”. Chamou especialmente sua atenção a
23ª Parada do Orgulho LGBT+ Bahia

23ª Parada do Orgulho LGBT+ Bahia será realizada em Salvador no feriado da Independência A 23ª Parada do Orgulho LGBT+ Bahia será realizada no dia 6 de setembro, véspera do feriado da Independência do Brasil, em Salvador. Organizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade fundada em 1980 e a mais antiga organização de defesa dos direitos civis de homossexuais da América Latina, o evento é considerado o maior ato público de direitos humanos, saúde coletiva e diversidade do Norte e Nordeste do país, reunindo tradicionalmente milhares de participantes ao longo do circuito Barra/Ondina. Com o tema “Vergonha adoece. Orgulho cura!”, a edição de 2026 convida a sociedade a refletir sobre o impacto da vergonha e do estigma na saúde da população LGBTQIAPN+. A proposta do GGB parte de um diagnóstico direto: o armário não protege, isola e adoece. Durante décadas, pessoas LGBTQIAPN+ foram tratadas como doentes e escondidas como vergonha alheia. A Parada, segundo os organizadores, inverte essa lógica ao afirmar que saúde não é ausência de doença, mas dignidade, além de que a cura passa por ocupar a rua coletivamente, sem pedir licença. A programação tem início às 11h, no Farol da Barra, com o “Palco da Diversidade”, que recebe apresentações de artistas drags e shows musicais. Nesta edição, o espaço homenageará Luiz Mott, em celebração aos 80 anos do antropólogo e fundador do GGB, reconhecido por sua trajetória de mais de quatro décadas na luta pelos direitos da população LGBTQIAPN+ no Brasil. Com concentração marcada para às 12h, o cortejo oficial sai às 15h do Farol da Barra, percorrendo o tradicional circuito Barra/Ondina. O cortejo reúne cerca de 10 trios elétricos, apresentações artísticas, autoridades e homenagens, em um clima que combina festa, resistência e afirmação de cidadania, elementos que consolidaram a Parada como um dos maiores eventos de rua do calendário oficial de Salvador e da Bahia. Levantamentos anteriores reforçam o peso turístico, econômico e cultural do evento. Pesquisa de demanda turística realizada pela Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (Setur) durante a 17ª edição registrou gasto médio individual de R$ 940,56 por participante, com permanência média de 5,5 pernoites em Salvador e taxa de aprovação de 83,3% entre os que afirmaram que participariam novamente. Estimativas do GGB para a edição de 2026 projetam injeção mínima de R$ 18 milhões na economia da capital baiana em um único dia de Parada, valor superior ao impacto médio estimado para grandes shows e jogos realizados na capital baiana. Além da mobilização turística e econômica, o GGB protocolou pedido para que a Parada do Orgulho LGBT+ Bahia seja formalmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador. O dossiê de fundamentação, encaminhado à Fundação Gregório de Mattos com base na Lei Municipal nº 8.550/2014 e no Decreto Municipal nº 27.179/2016, defende a inscrição do bem nos Livros de Registro das Celebrações e dos Lugares. O argumento da entidade é que, ao longo de 23 edições ininterruptas, a Parada consolidou-se como rito coletivo de resistência, território simbólico de cidadania e espaço de transmissão intergeracional de saberes organizativos, tendo inspirado a criação de mais de 60 paradas e caminhadas de bairro em Salvador. Em paralelo ao pedido de reconhecimento, o GGB lançou o manifesto político “Orgulho e Saúde Coletiva – Uma Narrativa de Cura”, documento que fundamenta o tema da 23ª edição e detalha o diagnóstico das limitações do poder público no atendimento à saúde da população LGBTQIAPN+, além de defender a ocupação do espaço público como ferramenta de cuidado coletivo. O manifesto completo está disponível para download no site do GGB. A 23ª Parada do Orgulho LGBT+ Bahia é realizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), com patrocínio do Estado da Bahia, Prefeitura de Salvador, Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, InterPride, ILGA World e Zoom Cruising Bar. Serviço Data: 6 de setembro de 2026 (domingo) Horário: 12h (Concentração) / 15h (Desfile de trios) Local: Circuito Barra/Ondina Realização: Grupo Gay da Bahia (GGB) Patrocínio: Estado da Bahia, Prefeitura de Salvador, Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, InterPride, ILGA World e Zoom Cruising Bar
Padrinhos de honra: Salete Maria e Luiz Mott

A 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT da Bahia ganhou seus padrinhos de honra: a cordelista e professora Salete Maria, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e o antropólogo Luiz Roberto de Barros Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), criado em 1980. A escolha não poderia ser mais simbólica, une a força da tradição popular nordestina à vanguarda científica que ajudou a fundar o movimento LGBT brasileiro.
Conversas que Conquistam

“Conversas que Conquistam”: Marcelo Cerqueira lança guia de comunicação política ancorado no poder das histórias Em tempos de saturação informacional e eleitores cada vez mais críticos, o historiador e jornalista Marcelo Cerqueira apresenta “Conversas que Conquistam: como dialogar e engajar eleitores de forma eficaz” – um guia prático para candidatos, assessores políticos e lideranças comunitárias que querem ir além dos números e alcançar o que realmente move decisões: as histórias.“A política nasce do encontro entre pessoas. Antes dos discursos, das propostas e das estratégias eleitorais, existe algo essencial: a capacidade de estabelecer diálogos verdadeiros e construir relações de confiança”, afirma o autor.A obra parte de um princípio simples e comprovado pela neurociência: o cérebro humano absorve histórias com muito mais facilidade do que números. Com base nessa premissa, Cerqueira defende que o candidato precisa se apropriar do método do storytelling – uma abordagem de comunicação que une história (history) e storytelling para criar narrativas que o eleitor não esquece.“O candidato precisa dominar o storytelling: contar sua trajetória, seus valores e suas propostas de forma que o eleitor se veja naquela história. É sobre criar identificação, não apenas informar”, explica Marcelo Cerqueira.Ao longo dos capítulos, o leitor percorre os desafios reais de uma campanha: da decisão de construir uma candidatura à escolha de um projeto político coerente, passando pela organização da base de apoio e pelo desenvolvimento de uma comunicação que transforma ideias em mobilização.Com ferramentas práticas, o livro ensina a:Conhecer o eleitor- além dos dados demográficos, suas dores, sonhos e repertório cultural;Elaborar mensagens claras – que conectem propostas à vida real de quem ouve;Fortalecer a presença nas redes sociais – sem perder a autenticidade do contato humano;Valorizar o porta a porta – resgatando a potência histórica do encontro presencial como estratégia de vínculo.“Em uma sociedade marcada pelo excesso de informações e por eleitores cada vez mais atentos, apenas falar já não é suficiente. É preciso saber ouvir, compreender necessidades, reconhecer histórias e criar conexões reais. O eleitor contemporâneo busca representantes capazes de dialogar com sua realidade, suas dificuldades e seus sonhos”, completa Cerqueira. Clube de Autores https://clubedeautores.com.br/livro/conversas-que-conquistam
O Antígeno do Estigma

O Antígeno do Estigma: Como o Orgulho LGBT+ Redefiniu a Saúde Pública Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia Em 1969, o Estado não regulava as populações dissidentes apenas por meio do cassetete policial. Ele o fazia, fundamentalmente, por meio do aparato médico-psiquiátrico. Ser homossexual ou transgressor de gênero era, por definição legal e científica, carregar um diagnóstico de perturbação mental (o antigo CID 302 e equivalentes). O corpo dissidente era um território ocupado pelo diagnóstico, pela vigilância sanitária e pela higienização social. Stonewall não foi só reação à brutalidade policial; foi uma insurreição contra a patologização da existência.Naquela noite de verão em Nova York, quando travestis negras, drag queens latinas, trabalhadores sexuais e jovens da periferia decidiram revidar, eles estavam operando a mais radical estratégia de Redução de Danos jamais vista. Naquele momento, a história que vem de baixo começava a ser escrita com sangue, suor, lágrimas e a coragem necessária para sustentar a recusa coletiva de permitir que o Estado amparado na medicina hegemônica decidissem quem tinha o direito de viver ou morrer.O confronto foi um manifesto coletivo, escrito na pele de cada um, provando que a sobrevivência e as condições de bem-estar são as métricas absolutamente primárias da saúde pública. A saúde coletiva frequentemente tratou a prevenção e o cuidado como pacotes técnicos que descem de gabinetes climatizados, sem nunca ouvir as populações vulneráveis. Stonewall inverte essa lógica. Foi a partir da revolta que surgiu o entendimento clínico e a comprovação de que o saber sobre a sobrevivência nasce da calçada, do asfalto quente e da vivência comunitária.Dessa luta, que teve início em um bar no Greenwich Village, para as ruas, foi um passo. No ano seguinte, em 28 de junho de 1970, aconteceu a Marcha do Dia da Libertação na cidade de Nova York, concentrando-se no Village – onde se deu a vitória histórica – e marchando até o Central Park.Os principais slogans e gritos eram recados diretos para a sociedade americana. “Gay is good” (Ser gay é bom), criado pelo ativista Frank Kameny, inspirou-se diretamente no movimento “Black is Beautiful”, que confrontava o racismo da época. Na primeira Parada do mundo, os participantes bradavam: “Say it clear, say it loud: Gay is good, gay is proud!” (Diga claramente, diga alto: ser gay é bom, ser gay é orgulho!). Eram milhares de pessoas diversas ocupando o asfalto, refutando estigmas e afirmando sua dignidade. Arte bar Stonewall, NYCEsse protesto fez com que a alforria médica chegasse em três anos. Em 15 de dezembro de 1973, a melhor comemoração de Natal da nossa história se concretizou quando a Associação Americana de Psiquiatria (APA) elevou a homossexualidade à categoria de orientação sexual, retirando-a do rol de patologias. Em seguida, a Associação Americana de Psicologia (APA) endossou a decisão, aprovando uma resolução que baniu oficialmente a homossexualidade da lista de transtornos mentais em 1975.Quem liderou a revolta não foram os homossexuais que buscavam assimilação; foram os corpos e corpas que transitavam na interseção aguda da vulnerabilidade social -incluindo raça, cor, território e dissidência de gênero. Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson não lutavam apenas pelo direito de frequentar um bar; lutavam pelo direito de ocupar o espaço público, por alimentação, trabalho, pela própria vida (para não serem assassinadas) e por uma rede de apoio mútuo – o que hoje compreendemos como determinantes sociais da saúde.O dia 28 de junho, portanto, é o marco de uma epistemologia de sobrevivência. É a data em que a periferia existencial do mundo desenhou, com pedras e barricadas, o rascunho de uma saúde pública que não oprime, mas liberta. No Brasil, em 1984, a nossa alforria aconteceu pela determinação do professor Luiz Mott que, ao mobilizar 17 mil assinaturas e obter o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fez o Conselho Federal de Medicina (CFM) tornar sem efeito o diagnóstico correspondente ao CID 302- antecipando-se à própria OMS na maior vitória política e sanitária do nosso movimento.Se a LGBTfobia estrutural e o racismo são patógenos sociais que produzem adoecimento mental, isolamento, depressão e morte, o Orgulho é o antígeno. O Orgulho, nesta interpretação, não é um sentimento de vaidade ou uma celebração vazia; ele é uma tecnologia de imunidade social. Quando um corpo dissidente se recusa a se envergonhar de sua própria biologia e de sua identidade, ele interrompe o ciclo de adoecimento psicossomático imposto pelo estigma. A Parada do Orgulho LGBT+ cura porque devolve ao sujeito a soberania sobre sua própria narrativa e sobre sua saúde.Escrever sobre o 28 de junho hoje é compreender que a nossa luta não terminou com a conquista do casamento civil ou com as leis de criminalização da homofobia. A travessia para a emancipação reside na garantia de que cada corpo gay, cada corpa preta, periférica, trans, travesti, bicha e não-binárie tenha acesso à dignidade plena: ao saneamento básico e à moradia como direitos fundamentais de saúde; à despatologização real e ao respeito às transições de gênero, sem a tutela humilhante do olhar médico colonizador; e à construção de uma rede de afeto e cuidado que neutralize a solidão e o abandono histórico de séculos. Fomos tão fustigados historicamente que corremos o risco de naturalizar essas violências e reproduzi-las contra os nossos próprios pares.O dia 28 de junho é o dia em que o corpo dissidente deixou de ser um objeto de estudo clínico ou de repressão policial para se tornar o sujeito soberano de sua própria narrativa existencial na cidade. A 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia, em 9 de setembro, será o momento de celebrar essa data materna e renovar o compromisso de que a nossa saúde, a nossa vida na cidade e o nosso legado são absolutamente inegociáveis. Marcelo Cerqueira, gestor, estrategista de diversidade, escritor autor do livro “Amor Sem Correntes: Um Manifesto pela Decolonialidade do Afeto” Editor J. M. D. de Oliveira, Sergipe, 2026.
Trincheira

Moira, Quinalha, Mott e Trevisan – Arte GGB Imagem A Literatura como Trincheira: GGB destaca obras essenciais para entender a Diversidade no Brasil Por Marcelo Cerqueira, DRT -2135/BA Em matéria publicada pelo portal UOL, especialistas e ativistas listam obras fundamentais que combatem o apagamento histórico da comunidade LGBTQIAPN+; Luiz Mott, fundador do GGB, assina e recomenda títulos que resgatam a ancestralidade trans e a trajetória do movimento. No mês em que celebramos o Orgulho, a literatura brasileira reafirma-se como um dos campos mais potentes para a consolidação de mudanças culturais e para o enfrentamento do “apartheid informacional”. Uma recente lista publicada pela Deutsche Welle (DW) e replicada pelo UOL destaca dez livros imprescindíveis para compreender a cena LGBTQIAPN+ no país, evidenciando que ler a nossa história é, antes de tudo, um ato de resistência política. Luiz Mott o Guardião da Memória e a Recuperação do Arquivo O antropólogo e professor da UFBA, Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), é uma das vozes centrais na curadoria desta lista. Mott não apenas recomenda clássicos, mas é o responsável por trazer à luz figuras que desafiam a lógica colonial de gênero. Xica Manicongo, a primeira do Brasil. Luiz Mott, editora COSAC, SP, junho, 2026 – Lançamento em Salvador, dia 11 de julho, ás 17h – Livraria do Glauber Rocha, Castro Alves. Um dos destaques absolutos é a obra do próprio Mott, “Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil”. O livro reconstrói a trajetória de Francisco, pessoa escravizada qu viveu na Bahia do século 16 e desafiou as imposições da Inquisição ao adotar uma performance de gênero feminina. Como destaca a deputada Dani Balbi na reportagem, a recuperação historiográfica feita por Mott opera como um gesto de reescrita do arquivo nacional, provando que identidades trans não são “modernismos”, mas presenças ancestrais na formação do Brasil. O Cânone da Resistência Além de sua obra autoral, Luiz Mott o GGB destaca títulos que formam a espinha dorsal do ativismo brasileiro: “Devassos no Paraíso”, de João Silvério Trevisan: Considerado por Mott e outros ativistas como o tratado mais completo sobre a homossexualidade no Brasil. Uma leitura obrigatória para quem deseja entender a luta desde as suas raízes. “História do Movimento LGBT no Brasil”: Organizado por James Green e Renan Quinalha, o livro conta com a colaboração do próprio Mott. A obra situa a busca por visibilidade no contexto da redemocratização, período em que o GGB nasceu e consolidou-se como farol da resistência. “E Se Eu Fosse Puta”, de Amara Moira: Mott pontua a importância desta obra para desconstruir a visão negativa sobre as travestis, um dos grupos mais estigmatizados pela necropolítica brasileira. A Literatura como Tecnologia de Liberdade Para o Grupo Gay da Bahia, a presença de temas LGBTQIAPN+ na literatura é uma ferramenta de saúde coletiva e dignidade. “Lendo e estudando a nossa história, muda-se a forma como a sociedade nos vê e como nós nos vemos”, reforça o pensamento crítico que o GGB promove há 46 anos. A lista contempla ainda obras contemporâneas como “Amora” (Natalia Borges Polesso), “O Beijo do Rio” (Stefano Volp) e sucessos da literatura jovem como “Quinze Dias” (Vitor Martins) e “Conectadas” (Clara Alves), mostrando que a nova geração de escritores está ocupando o centro da cena literária com narrativas de afeto e autonomia. https://www.amazon.com.br/Xica-Manicongo-Luiz-Mott/dp/6555900490