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Carta aberta de Toni Reis a Cássia Kis

http://www.tonireis.com.br/?p=1246

Cássia Kis, você é uma grande atriz, admiro seu trabalho, sua versatilidade. Você com certeza está no panteão da cultura brasileira. Você se destacou em peças, filmes e dezenas de novelas. É ganhadora de inúmeros prêmios em reconhecimento de seus talentos.

Você inclusive esteve em Curitiba, anos atrás, a pedido da Rede Globo de Televisão, para prestigiar a entrega do Prêmio Dignidade Solidária para as pessoas e instituições que são aliadas da causa dos direitos humanos das pessoas LGBTI+ e da causa do HIV/aids.

Eu sou Toni Reis, tenho 58 anos, casado há 32 anos com David Harrad (64 anos). Ano que vem vamos comemorar bodas de crizo, inclusive você está convidada para o festerê!

Eu e meu esposo adotamos três carioquinhas lindos, ainda crianças, Alyson, agora com 22 anos, Jéssica (19) e Filipe (17). Para sua informação, foram concebidos por relações heterossexuais. Todos estão estudando e trabalhando. Foram batizados na catedral (católica) de Curitiba, e emoldurada na parede da nossa sala de estar tem uma carta recebida do Papa Francisco, desejando felicidades divinas a mim e à nossa família.

De fato, nós, enquanto casal gay, não procriamos, embora tentemos, mas nós criamos com amor nossos filhos que vieram de relações heterossexuais.

Eu ouvi suas falas no programa com a Leda Nagle (26/10/2022):

“… Não existe mais o homem e a mulher, mas a mulher com mulher e homem com homem, onde tem essa ideologia de gênero, que a gente já está vendo dentro das escolas com as crianças… O que está por trás disso? Destruir a família, sem dúvida nenhuma, mas destruir a família só, não, destruir a vida humana, porque que eu saiba, homem com homem não dá filho, mulher com mulher também não dá filho …”
Link https://youtu.be/2rdPxM7qylc

Juro que caiu uma lágrima. Fiquei muito triste. A assim chamada “ideologia de gênero” é uma falácia, inventada ainda nos anos 1990 dentro do equivalente do “gabinete do ódio” da cúpula de uma igreja milenar, com a intenção de reprimir o movimento em prol da igualdade entre mulheres e homens.

Como disse certa vez o cineasta Derek Jarman, “a sexualidade é tão ampla quanto o oceano, não faça dela um aquário”. Existem bilhões de formas de expressão de orientação sexual e de identidade de gênero, tantas quanto há habitantes na Terra.

Ainda, nunca vão acabar os relacionamentos entre homens e mulheres só porque os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo estão tendo mais visibilidade. Há espaço para todas as configurações familiares (pelo menos 196, segundo Petzhold). Não há risco da destruição da vida humana, porque sempre vai ter quem “gosta de macarrão”: a procriação continuará sem dúvida alguma.

Fiquei pensando, “será que a Cássia Kis, tão inteligente, não leu o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, ‘Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos’?” Fiquei me perguntando, “será que Cássia Kis não conhece o documento mais importante do nosso Brasil, a Constituição Federal, cujo artigo 5º estabelece que ‘Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza’?” Inclusive o Supremo Tribunal Federal, como “Guardião da Constituição”, e devido à omissão do Congresso Nacional, em 2019 determinou que atos LGBTIfóbicos são um tipo de racismo e puníveis como tais (ADO 26 / MI 4733).

Sua fala, que denota “crime de ódio”, discriminação e desvalorização a mim a à nossa comunidade, não matou nenhuma lésbica, nenhum gay, nenhuma pessoa trans, nenhuma pessoa da diversidade sexual, mas com a sua fala, você referendou a persistência de alguns dos dados abaixo, e incentivou, por mais que seja indiretamente, atitudes na sociedade que levam a estas situações:

  • 62% da nossa comunidade já tiveram ideação suicida em função de rejeição, preconceito, discriminação, entre outros fatores que sofrem, por serem o que são;
  • 73% da nossa comunidade sofrem bullying no sistema de educação, 60% se sentem inseguros e 36% sofrem violência física nestes ambientes;
  • Em média, todos os anos 300 pessoas LGBTI+ no Brasil são barbaramente assassinadas, com requintes de crueldade, apenas por serem LGBTI+.

Posto isso, amizade é amizade, admiração é admiração, mas vamos ter que conversar com o Ministério Público. Liberdade de expressão, que eu defendo ardentemente, não pode chegar ao ponto de ferir a dignidade alheia. Estou profundamente ferido. Pessoalmente, recomendo que você repense suas atitudes, inclusive gostei muito do beijo lascivo entre você e Lúcia Veríssimo, achei que foi uma grande expressão de arte: https://www.estadao.com.br/emais/gente/lucia-verissimo-compartilha-foto-beijando-cassia-kis-sim-foi-verdade-esse-beijo/

O amor vencerá o ódio, e eu luto por uma sociedade idealizada por Rosa Luxemburgo, “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Toni Reis
Doutor em Educação, Mestre em Filosofia, Especialista em Sexualidade Humano, formado em Letras e Pedagogia. Diretor-Presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, fundador do Grupo Dignidade, Diretor Financeiro da Rede GayLatino.

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