MOTT É CELEBRAR! um cordel que descreve vida, luta, coragem e força.
Prof. Salete Maria, UfbaCordelirando.  Hoje é dia seis de maio Do ano dois mil e vinte Vejamos como me saio Rimando sobre o seguinte Nesta data especial Sobre um cara original Cheio de luz e requinte Ele soma mais um ano De vida fenomenal E segue fazendo plano Nesta indústria vital Repleto de energia De amor e rebeldia E isto é um bom sinal Ele faz setenta e quatro E me causa alegria Seria um espalhafato Se não fosse a pandemia Pois o ilustre veterano Segue lindo e soberano Esbanjando euforia De nascença paulistano Ele elegeu a Bahia Onde sagrado e profano Se misturam noite e dia E em plena ditadura Rompeu com a atadura E amou com ousadia Ele é grande liderança Fundador do GGB Homem de muita andança Com quem se pode aprender Tudo sobre homofobia História e antropologia Ou nas tretas se meter É grande pesquisador E professor respeitado Militante e escritor Além de gay declarado Em Roma está agora Doido para ir embora Mas seu voo foi cancelado Militante destacado Polêmico e combativo “O decano dos viados” É todo superlativo Se briga, é em demasia Se ama, hipertrofia Se fala, é impulsivo Se luta, não arrefece Se gosta, não abandona Se mira, jamais esquece Se curte, chama de mona Só vive na internet Grudado feito chiclete Mais famoso que Madona Muitas vezes premiado Com medalhas nacionais De igual modo celebrado Em textos transnacionais Porém também odiado E até demonizado Por quem proclama a paz Já viveu em seminário Onde tudo desvendou Não quis ser celibatário Pois a vida o encantou É pai e avô arretado Mas também é desbocado E muito namorador Cozinha como ninguém E sabe ser bom amigo Eu lhe quero muito bem E sei que corro perigo Pois ele é do babado Coleciona intrigados Além de ter inimigos Muitos livros escreveu E artigos publicou Muito evento promoveu E palestras ministrou Já abalou multidões Já encantou corações E muita gente inspirou Sempre defendeu direitos Pra comunidade gay Esteve à frente de pleitos Dentro e fora da lei Combatendo homofobia Disseminando alegria Pra isso desceu pro play Segue na luta diária Promovendo discussões Não importa a faixa etária Sempre traz reflexões Diz que “ser gay é legal” Pega a cobra, mostra o pau Conduz marchas e ações Trata-se de Luiz Mott Ativista brasileiro Que um dia tive a sorte De achar seu paradeiro Louvar sua produção E com ele comer feijão Sentada no seu terreiro Celebro sua existência Mesmo estando distante E apesar das divergências Pra mim é reconfortante Saber que ele está bem Por isso digo amém Pois o admiro bastante Assim termino meu verso Feito em plena quarentena Pedindo ao Universo Que lhe conceda uma centena Ou mais, de anos felizes Para que nós, aprendizes, Possamos vê-lo em cena! Salete Maria Cidade do México, 06/05/2020
Celebramos neste segundo ano de pandemia do Covid-19, quatro décadas de existência e resistência. Refiro-me a duas comemorações:
l Por: *Franclin Correia da Rocha, especial para o site. Salvador,08 de Abril 2021- A epidemia da Aids e da fundação do primeiro Grupo Gay da Bahia (GGB) e do Brasil, quiçá da América Latina. Assim, como os primeiros movimentos de luta contra Aids no mundo, o grupo foi composto por civis homossexuais, que se assemelhavam em um objetivo comum, a luta por direitos, sobretudo por suas existências. O boom da epidemia na década 80 com os primeiros casos de pessoas infectadas pelo vírus do HIV no Brasil, coincide com as ações de combate e denúncia a LGBTfobia em Salvador com a publicação do caso no jornal LAMPIÃO DA ESQUINA[1]. O grupo organizado tinha também como ação a prevenção com uso da camisinha masculina, tecnologia que a Igreja Católica se opunha na época da epidemia, pois considerava as práticas sexuais de homossexuais promíscuas e inadequadas, sugerindo então a abstinência sexual. Essa forma mais ampla e única de uso da tecnologia evitava a contaminação, aumento de casos e mortes. O que diferencia as pessoas acometidas ao HIV/AIDS são as diferentes culturas, contextos sociais e políticos. Os casos nos EUA de populações primeiramente em homens com relacionamentos homossexuais, depois lésbicas, mulheres e homens cis, pessoas brancas. Sendo que na Bahia, particularmente em Salvador, esta população é negra. De lá pra cá muitas conquistas foram produzidas com o avanço da ciência, tecnologia, de mais políticas públicas, populações vulneráveis ao vírus do HIV/aids e que são vítimas da LGBTIAfobia. Exemplos, como a criação do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais em 1986. No ano de 2006 a quebra de patentes dos medicamentos foi de extrema importância para o Brasil ter acesso aos medicamentos como – o Efavirenz-, uso de tecnologias de profilaxias pré e pós exposição (Prep e Pep), teste de vacinas antiaids. Outra grande conquista foi acriminalização da homofobia e transfobia com a lei 7.716 enquadrado em crime de racismo em 2019 e além do direito de união homoafetiva “(homem e mulher)” previsto no artigo 1723/17 do Código Civil. Conquistas e retrocessos foram promovidos como rebaixamento do Departamento de IST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde para o setor chamado Departamento de Doenças de Condições e Infecções Sexualmente Transmissíveis fazendo com que o setor perdesse sua autonomia para execução de políticas. Uma forma de retirada do termo AIDS (traduzida como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – SIDA) do nome do departamento, como forma de “tentar” colocar em esquecimento algo grave, que é a epidemia do vírus, existente no Brasil e no mundo”. O programa criado pelo governo federal “Brasil sem homofobia” de 2011, foi suspenso, deslegitimando o direito e respeito aos direitos humanos, o problema com a discriminação e violência que gera a homofobia. Evidenciando que o ativismo desde sempre pelas causas LGBTQIA e de HIV(Vírus da Imunodeficiência) continua resistindo a estes retrocessos, se articulando, engajando, criando novas estratégias de para garantir seus direitos e suas existências mesmo em tempos tão atípicos como este que estamos vivendo. E o reconhecimento desses movimentos sociais em prol de mais dignidade, humanidade e respeito, serve como princípio importante de força coletiva que cria possibilidades de transformações da sociedade como todo. Por isso, a relevância como proposta de homenagear e celebrar, dar visibilidade, comemorar, rememorar duplamente estas quatro décadas de vitórias. *Franclin Correia da Rocha, natural de Salvador (BA), bicha preta, de pela clara, periférico, arthivista, educador, produtor, performer. Possui Especialização em Arte Educação Cultura Brasileira e Linguagens Artísticas Contemporâneas (2020) pela Universidade Federal da Bahia, O teatro como prática educativa na abordagem dos temas gênero e sexualidade. Possui graduação em Licenciatura em Teatro (2010). Pesquisador da Performance da cena pós-coquetel, cena queer, raça/cor, HIV/aids. Atento as escrevivências, subjetividades, afetividade, posithividades de corpos subalternos, dissidentes. [1] O Lampião da Esquina foi um jornal homossexual brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981. Nasceu dentro do contexto de imprensa alternativa na época da abertura política de 1970, durante o abrandamento de anos de censura promovida pelo Golpe Militar de 1964. Acesso em 21 de abril de 2021: http://www.grupodignidade.org.br/projetos/lampiao-da-esquina/