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Número de homicídios de pessoas LGBT pode ser recorde em 2016

Débora Brito – Repórter da Agência Brasil – Salvador, Bahia, 31 de dezembro de 2016. O número de homicídios de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais deve crescer em 2016 e superar as ocorrências dos últimos anos. A tendência é revelada pelo Grupo Gay da Bahia, que anualmente elabora o Relatório de Assassinatos LGBT no Brasil. Dados preliminares do levantamento apontam que o ano deve ser fechado com o total aproximado de 340 mortes, maior número registrado nos últimos anos.“No ano passado (2015), foram 318 mortes. Até agora, estamos com 329 mortes, mas temos alguns casos aguardando confirmação e o ano deve ser fechado com aproximadamente 340 mortes. Em 36 anos que monitoro os dados, nunca chegamos a esse número”, afirmou Luiz Mott, antropólogo fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB). Segundo ele, o aumento se deve a vários fatores, como a coleta mais sistematizada de informações e a reação conservadora ao maior número de pessoas que vem assumindo sua condição sexual. “Hoje, tem mais homossexuais e trans saindo do armário por causa das paradas gays e outras campanhas; e isso os deixa mais expostos a situações de violência, o que levou ao aumento generalizado de crimes”, explicou Mott. O estudo mostra que a maior parte das mortes (195) ocorreu em via pública, por tiros (92), facadas (82), asfixia (40) e espancamento (25), entre outras causas violentas. O assassinato de gays lidera a lista com 162 casos, seguido dos travestis (80), transexuais femininas (50) e transexuais masculinas (13). A instituição recebe informações das mortes por outras entidades, por familiares e amigos das vítimas, mas a principal fonte da base de dados são os casos divulgados pela imprensa. O levantamento é reconhecido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. A subnotificação das mortes ainda é um desafio para as entidades que monitoram o problema. Mas, só pelos resultados do último relatório, a ONG constatou que uma pessoa LGBT morre a cada 28 horas no Brasil. E se a tendência de aumento se confirmar, o intervalo pode cair para 24 horas. “É apenas a ponta do iceberg, porque muitos são assassinados e as testemunhas escondem”, disse Mott. Nordeste lidera O estudo mostra que a liderança dos casos nos últimos anos é do Nordeste, mas outras regiões tem despontado com casos graves. “Atribuo isso ao conservadorismo e à falta de informação. A surpresa deste ano é o estado do Amazonas, que registrou até o momento 29 mortes. Proporcionalmente, o dado é chocante, embora São Paulo sempre registre o maior número absoluto”, disse Mott. Entre os casos contabilizados, está a morte recente do ambulante Luís Carlos Ruas, espancado na noite de Natal por dois homens, numa estação de metrô em São Paulo, ao defender moradores de rua e travestis. O GGB configurou o ataque como um crime LGBTfóbico. Apesar de se tratar da morte de um heterossexual, de modo indireto “não deixa de ter também um crime LGBTfóbico. Afinal, a confusão começou pela defesa de uma travesti”, explicou Agatha Lima, integrante do Conselho LGBT de São Paulo e da Associação de Transexuais, Travestis, Transgêneros. Cerca de “99% dos crimes contra LGBTs tem como agravante a intolerância, além da vulnerabilidade de grupos como os travestis, que geralmente estão nas ruas em condições mais marginalizadas, envolvidas com prostituição e uso de drogas devido à exclusão sofrida em outros espaços da sociedade”, explicou Mott. A opinião é compartilhada por outras organizações de defesa dos direitos das pessoas Trans, que engloba homens e mulheres transexuais e travestis. Líder mundial O alto índice de violência levou o Brasil à liderança do ranking mundial de assassinatos de pessoas transexuais em 2016. Das 295 mortes de transexuais registradas até setembro deste ano em 33 países, 123 ocorreram no Brasil, de acordo com dados divulgados em novembro pela ONG Transgender Europe. O México, os Estados Unidos, a Colômbia e a Venezuela seguem o Brasil em números absolutos do ranking de mortes de transexuais. O relatório europeu mostra que, de janeiro de 2008 a setembro de 2016, foram registradas 2264 mortes de transexuais e transgêneros em 68 países. Nos oito anos da pesquisa, o Brasil contabilizou 900 do total dos casos, o maior número absoluto da lista. “Há décadas o Brasil é campeão mundial nos crimes contra a população LGBT. Comparativamente aos EUA, por exemplo, matamos de 30 a 40 LGBTs por mês, enquanto que lá morrem 20 por ano. O principal motivo é a LGBTfobia individual e cultural, que incrementa os crimes letais no nosso país”, diz Mott. A conselheira Agatha Lima, disse que as associações estão dialogando com a ONU sobre essa questão. “Em primeiro lugar, isso é um absurdo. Em segundo lugar, ao mesmo tempo que o Brasil é o país que mais mata, é também o que tem a maior clientela para os profissionais do sexo trans. No país inteiro, existem 1,4 milhão pessoas trans, e 90% delas vivem do mercado do sexo, por causa da exclusão e do preconceito que sofrem no mercado de trabalho formal, em casa e nas escolas”, disse.  

Mídias externas: Campanha estimula diagnóstico precoce em Salvador 

Começou hoje a circular a campanha Fique Sabendo que estimula a realização do teste para detecção do vírus HIV. A campanha realizada pelos grupos Quimbanda Dudu, CBAA, e Grupo Gay da Bahia tem a finalidade de sensibilizar a população em geral para a necessidade de fazer o teste que é rápido e pode pública de saúde. Tem apoio da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB), produção a Rota Mídia. De acordo com o infectologista e subsecretario de Saúde da Bahia, Dr. Roberto Badaró, o quanto antes a pessoa souber, fica mais fácil tratar. Para esta ação foram confeccionadas quatorze peças distribuídas nas principais rotas percorridas pelos ônibus municipais permanecendo por todo o mês de janeiro, época que a cidade recebe grande quantidade de visitantes. (Salvador, Bahia, 28/12/16).   Se ligue na sua saúde sexual Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) é um problema! HIV, aids, sífilis, gonorreia, clamídia, HPV e outras doenças como as Hepatites Virais afetam o corpo e podem diminuir a autoestima. Evitar é simples e fácil: Use Camisinha! Se perceber alterações, procure o serviço de saúde! Algumas DST tem cura, já o HIV/aids, não! Procure o serviço de saúde para fazer os testes de aids, sífilis e Hepatites Virais. Quanto mais cedo você souber que tem alguma doença e iniciar seu tratamento melhor será sua qualidade de vida.   Além dos postos de saúde, você poderá ir aos serviços especializados abaixo:   CEDAP – Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa Rua Comendador José Alves Ferreira, 240 – Garcia (Próximo Colégio Dorotéia). Telefone: (71) 3116-8888 Horário: 8h às 16h.   Centro de Testagem e Aconselhamento Marymar Novais Rua Arthur Bernardes, Dendezeiros, Cidade Baixa. Telefone: (71) 3611-6560 Horário: 8h às 16h      

Uma agenda mínima comum entre LGBTs.

Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia – SALVADOR, BAHIA, 14/12/16 – ÁS 15H04 – Não existem pesquisas geográficas que consigam expressar o tamanho da população de gays, lésbicas, travestis e transexuais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) realizou um estudo em 2010, publicado em 17 de outubro de 2012, e constatou 60 mil casais LGBT no Brasil. Salvador ficou em terceiro lugar com 1.595 uniões. Nós, do movimento LGBT nacional, acreditamos que 10% da população seja constituída por homossexuais, de acordo com o relatório sobre sexualidade masculina publicado nos Estados Unidos da América, em 1948, pelo médico pesquisador Alfred Kinsey, (Sexual Behavior in the Human Male). Este estudo é revelador de que somos milhões, estamos em todos os lugares, ocupamos profissões diferentes, vivemos de maneira diferente, permeamos todos os tecidos sociais, classes, cor de pele, somos iguais e ao mesmo tempo somos muito diferentes um dos outros. Não é tarefa fácil colocar pessoas ou comportamentos em caixinhas, porque só a pessoa pode entender-se como ela é, vive e se relaciona com a sua sexualidade. Mas vamos fazer um esforço aqui. Somos gays, lésbicas, sapatona, trasvestis, homem e mulher trans e intersexuais. Dentro dessas categorias encontramos os grupos de negros, negras, pobres, ricos, magros, gordos, ativos, passivos, suburbanos, favelados, conservadores, liberais, anarquistas, malhados, transformistas, gays cisgênero com identidade masculina, mulher lésbica cisgênero, homem trans cisgênero, idosos, novinhos, bichas, andróginas, bofinhas, catadores, sem-terra, sem teto, ativistas, não ativistas, e tantas outras categorias existentes nas sombras e nas luzes das cidades, que se relacionam com funções, sistemas, elementos físicos, linguísticos, mentais desenvolveram estrutura de realidade independente. Compreender esse universo é necessário olhar por dentro para perceber características desses sistemas e os seus estímulos junto aos homossexuais no mundo moderno, na rapidez que as coisas acontecem nas metrópoles. A pós-modernidade trouxe consigo as novas tecnologias avançadas de comunicação de massa como a internet. Antes, o indivíduo vivia apático, isolado, não conhecia outras culturas modernas, não havia meios eficientes para a troca de experiências culturais. A representação social e a relação indivíduo sociedade se transformou em meio à crise das instituições de segurança, trabalho, saúde e educação, os indivíduos tinham de interagir. Assim, cada um passa a representar-se sem a necessidade de outorgar um poder simbólico a uma pessoa, partido político, ou políticos, entidade ou mesmo órgão público. A internet para os LGBT está como a corda para o pau do berimbau: esse universo de informações, imagens e conceitos mudou o estilo de vida, considerando que após tantos séculos sem poder falar, se posicionar, interferir reivindicaram para si a sua própria representação social, cultural e política de forma intensa. O mundo moderno e as tecnologias de informação estimulam uma atitude relacionada à cultura, às cidades, à moda, comportamento, e uma liberdade total ao corpo. Com isso, acesso a tantos conteúdos, o que é muito bom, o indivíduo começa a perceber que existem outras identidades de gênero além das homonormativas clássicas (mulher lésbica cisgênera, casada, classe média, branca). As identidades de gênero clássicas sólidas convivem nos dias de hoje com as identidades fluidas e líquidas. Convivência nem tão harmoniosa, mas essa fluidez indica que o indivíduo pode dispor do seu corpo como quiser, assumir uma identidade momentânea para algo que em tese não teria tanta importância, isso talvez seja. É como trocar de rouca. Existem mais de trinta identidades de gênero, muitas reivindicam espaço de direito, dentro e fora do universo LGBT. Diante de uma população absolutamente marcada pelas diferenças, qual seria uma agenda comum? Vamos falar dos direitos humanos e de expressões de violência. Sem dúvida, vivemos nesse momento um deserto em direitos e um mar de violência, com requinte de crueldade. Dos crimes praticados contra os LGBTs, muitos revelam brutalidade sem precedentes. Na Bahia, de janeiro até novembro, são mais de trinta homicídios. A sociedade ainda rejeita os LGBTs, e observa tudo isso com indiferença, seja por dificuldade de compreender tantas identidades ou por preguiça mental. Mesmo com os avanços sociais, as restrições ao afeto LGBT em público são muito reincidentes, as vezes seguida de violência física. Esse aspecto que seria, em tese, o mais considerável para uma agenda mínima com a população LGBT em geral, não é suficiente. Isso porque o impacto da violência e alijamento de direitos fundamentais sofrido por um homossexual morador do Bairro do Calabar não chega com o mesmo impacto ao homem gay cisgênero, branco, classe média, casado morador do Morro do Gato. O gay negro, pobre morador do Calabar, não possui os mesmos direitos que o outro que desce a ladeira de carro fechado com ar condicionado e olha com aquele olhar de desprezo de Mary Strip, personificando Miranda, em “O diabo veste Prada”. O gay com traços feminino do Calabar acredita que não tem direitos porque não lhe dão o direito sequer de existir. Se ele não existe, não é portador de direitos. Para ter direitos, é preciso dar direitos a essas pessoas LGBT que vivem em condições desumanas e miseráveis na cidade de Salvador. Mas o que seria um ponto da agenda? Talvez o direito à vida e a ter direitos de verdade, sim. Quando pensamos em vida, pensamos em viver. Isso possui vários significados: viver, existir e transitar com liberdade sem passar por constrangimentos por expressar uma forma de amor. Desse modo, uma agenda comum é a ocupação dos espaços públicos da cidade com dignidade. É na cidade que as identidades são construídas e vividas. Ocupar os espaços públicos em momentos especiais como as Paradas é um momento que a cidade percebe a existência dessa variada população que de forma diferente sofre impacto das intolerâncias. Mas, mesmo diante desse momento dionisíaco, aquele gay que citei acima, não frequenta, ainda faz dessa recusa motivo de conversa entre os seus pares. – See more at: http://www.correio24horas.com.br/blogs/mesalte/artigo-uma-agenda-minima-comum-entre-lgbts/#sthash.FmgWJuCp.dpuf