
Foto/ Pierre et Gilles, França
São Sebastião: Do Mártir Romano ao Ícone de Resiliência e Diversidade
Salvador, BA – Em meio à efervescência de celebrações e ao reconhecimento de uma das figuras mais enigmáticas da hagiologia cristã, surge a pergunta: quem foi São Sebastião, e como este santo, padroeiro do Rio de Janeiro, tornou-se também um inesperado ícone para a comunidade LGBTQIA+? Sua história, marcada pelo martírio e por uma iconografia singular, transcende o tempo, oferecendo múltiplas camadas de interpretação que vão além do dogma. Dia 20 de janeiro é uma data dedicada ao santo.
Um Soldado na Corte de Diocleciano: A Origem e o Martírio
Nascido em Narbonne (atual França) por volta do século III, Sebastião era um oficial da Guarda Pretoriana Romana, um cargo de prestígio que o colocava próximo ao imperador Diocleciano. Secretamente cristão, ele usava sua posição para converter soldados, consolar prisioneiros e ajudar os menos afortunados, numa época de intensa perseguição aos seguidores de Cristo.
Sua fé foi descoberta, e Diocleciano, sentindo-se traído, ordenou sua execução. Sebastião foi amarrado a um poste e flechado por arqueiros até ser dado como morto. No entanto, uma piedosa mulher chamada Irene o resgatou, cuidou de seus ferimentos, e ele milagrosamente se recuperou. Determinado, Sebastião confrontou Diocleciano novamente, denunciando sua crueldade. Furioso, o imperador ordenou uma segunda execução, ainda mais brutal: Sebastião foi açoitado até a morte e seu corpo, jogado nos esgotos de Roma para que não recebesse sepultura cristã. Seu corpo foi recuperado e sepultado nas catacumbas, onde hoje se encontra a Basílica de São Sebastião Extramuros.
Padroeiro de Cidades e Protetor Contra Pragas
A devoção a São Sebastião espalhou-se rapidamente. Na Idade Média, ele era invocado principalmente como protetor contra a peste. A imagem de flechas atravessando seu corpo era associada aos “dardos” da doença, e sua intercessão era vista como um escudo. No Brasil, ele se tornou padroeiro de cidades importantes como o Rio de Janeiro (São Sebastião do Rio de Janeiro), fundado em 1565 no dia do santo. Sua proteção era invocada contra invasores e doenças, consolidando seu papel de guardião.
O Ícone Gay: Da Iconografia à Ressignificação
A conexão de São Sebastião com a comunidade LGBTQIA+ é um fenômeno mais recente e, curiosamente, não decorre de um milagre explícito ou de uma biografia que sugira tal aliança. Sua origem está profundamente ligada à sua iconografia, particularmente a forma como foi retratado por artistas da Renascença em diante.
A imagem clássica de São Sebastião o mostra jovem, belo, seminu, amarrado a um tronco e perfurado por flechas, mas com uma expressão que não é de dor excruciante, e sim de serena aceitação, êxtase ou até mesmo desejo. Artistas como Guido Reni e Sandro Botticelli o representaram com uma estética que ressoa intensamente com a sensibilidade homoerótica. O corpo esculpido, a nudez parcial, a vulnerabilidade e a beleza em meio ao sofrimento criaram uma figura poderosa.
Para muitos artistas e indivíduos gays, essa representação de um corpo martirizado, mas esteticamente reverenciado, tornou-se um símbolo de identificação. O sofrimento de Sebastião, que em contextos religiosos é visto como uma prova de fé, em uma leitura queer pode ser ressignificado como a dor e a resiliência enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+ – uma dor muitas vezes infligida pela sociedade, mas suportada com dignidade e uma beleza intrínseca.
Ele não se tornou padroeiro dos gays por ter sido gay ou por ter realizado um milagre específico para essa comunidade. Sua elevação a esse status advém de uma ressignificação cultural e estética de sua imagem, onde o corpo vulnerável e ao mesmo tempo forte, a beleza em meio ao infortúnio e a aparente serenidade diante da morte, foram lidos como metáforas visuais da experiência queer. Em um mundo onde a sexualidade não heteronormativa foi historicamente estigmatizada e perseguida, o mártir que suporta a dor com beleza e dignidade tornou-se um poderoso símbolo de resistência e identidade, abraçado por aqueles que veem em sua figura um reflexo de suas próprias lutas e sua própria beleza.
Assim, São Sebastião, o soldado romano que desafiou um imperador, hoje representa não apenas a fé e a proteção contra males, mas também a persistência e a celebração da diversidade em um mundo que, ainda hoje, busca compreender e acolher todas as formas de existência.
A Festa de Olivença: Um Encontro de Culturas em Ilhéus
Localizada no distrito de Olivença, em Ilhéus, sul da Bahia, a festa celebra Nossa Senhora da Ajuda, padroeira dos pescadores e da comunidade local. Mais do que uma simples festa religiosa, ela é um complexo cultural que integra elementos do catolicismo popular com a ancestralidade e rituais do povo indígena Pataxó, que habita a região há séculos.
A festa acontece anualmente em agosto, atraindo moradores, turistas e devotos, que se unem em procissões, missas, shows de forró, culinária típica e, claro, as suas celebrações mais emblemáticas. O ponto alto da festa, e o que realmente a distingue, é a Puxada do Mastro de Batição.
A Puxada do Mastro de Batição: Força, Fé e União
A Puxada do Mastro é um ritual que antecede o dia da procissão de Nossa Senhora da Ajuda e simboliza a união entre os elementos da natureza e a devoção. É um evento de grande vigor físico e espiritual, que se desenrola em etapas:
A Batição (Corte do Mastro). A jornada começa no interior da mata atlântica, em um local previamente escolhido pelos líderes da comunidade e pelos indígenas Pataxó. Um grupo de homens, munidos de machados e motosserras, adentra a floresta para selecionar e derrubar um tronco de árvore específico – o futuro mastro. Essa “batição” não é apenas um corte, mas um ato que reverencia a natureza, pedindo licença e agradecendo pela árvore. Há cantos e rituais indígenas que marcam esse momento, garantindo que a retirada seja feita com respeito e propósito.
O Preparo e o Carregamento. Após a derrubada, o tronco é limpo e preparado para ser transportado. Este é um momento de grande comunhão e esforço físico. Os homens (e por vezes, mulheres também) se revezam para amarrar o mastro e içá-lo. A Puxada não é feita por máquinas; é a força braçal, a cooperação e a sincronia do grupo que movem o pesado tronco.
A Caminhada do Mastro. Em seguida, o mastro inicia sua longa e árdua jornada da mata até a praça da igreja de Olivença. Este é o momento mais icônico do ritual. Centenas de pessoas se juntam, segurando cordas amarradas ao tronco, puxando-o coletivamente. A caminhada é acompanhada por cânticos, batucadas, gritos de incentivo e a música vibrante das charangas e grupos culturais. O suor escorre, os músculos se contraem, mas a energia da união prevalece. O percurso é longo, muitas vezes sob o sol forte, e é intercalado por paradas estratégicas onde a comunidade oferece água, alimentos e bebidas para os puxadores.
A Financiação do Mastro. Chegando à praça da igreja, o ápice da Puxada é a cerimônia de fincar o mastro no chão. Com a ajuda de cordas e a força de muitos braços, o pesado tronco é levantado e encaixado em uma base preparada. Esse ato simboliza a renovação da fé, a conexão da comunidade com a terra e o céu, e a prontidão para as festividades que se seguirão. O mastro, então adornado, permanece como um ponto central de celebração.
Simbolismo e Significado
A Puxada do Mastro de Batição é muito mais do que um espetáculo folclórico; é um ato de resistência cultural e afirmação identitária. Para os Pataxó, representa a continuidade de seus rituais e a manutenção de sua relação sagrada com a floresta. Para a comunidade católica, é um gesto de fé e devoção à padroeira, uma oferenda coletiva.
É um testemunho da força da comunidade, da solidariedade e da capacidade de superação através do trabalho conjunto. Não há hierarquia nas cordas; todos puxam juntos, homens e mulheres, jovens e idosos, indígenas e não-indígenas. Essa união forjada no esforço físico e na devoção torna a Puxada um símbolo poderoso de que, juntos, é possível mover o que parece imovível.
Em resumo, a Festa de Olivença e sua Puxada do Mastro de Batição são uma experiência visceral da cultura baiana, um convite a sentir a terra, a história e a fé pulsarem em uníssono.






Foto/ Pierre et Gilles, França