
Editorial Marcelo Cerqueira
Quando a coragem ocupa a cadeira: Erika Hilton e o sentido político da Comissão da Mulher
A condução da Comissão da Mulher do Congresso Nacional pela deputada Erika Hilton abre um debate importante sobre representação, responsabilidade e compromisso político real. Mais do que uma disputa simbólica, trata-se de observar quem, de fato, está disposto a dar o seu sangue, assumir uma função que exige a dedicação de muito tempo, desgaste, firmeza pública e capacidade de enfrentamento. Presidir uma comissão não é apenas vestir uma roupa bonita e ocupar a cadeira; é carregar o peso das pautas, arbitrar conflitos, ouvir setores diversos e sustentar uma agenda espinhosa que nem sempre rende aplausos.
Nesse cenário, é preciso reconhecer publicamente uma realidade pouco dita com franqueza. Muita gente não quer presidir a Comissão! Não quer pela carga de trabalho, pela responsabilidade política, pela pressão institucional e pelo custo público que esse lugar impõe. A Comissão da Mulher, em especial, exige muita dedicação, refinamento intelectual para lidar constantemente com os temas sensíveis, muitas vezes atravessados por conflitos ideológicos, disputas partidárias e tensões culturais estruturais. Não é um espaço de conforto, é uma arena de enfrentamento, combate e defesa.
Também é visível que setores da direita feminina, em grande parte, não demonstram interesse efetivo em conduzir esse debate. Muitas mulheres na política acabam reproduzindo práticas tradicionais de poder, historicamente associadas a uma lógica masculina de atuação. Suas prioridades políticas costumam estar voltadas para outras agendas, e muitas vezes a discussão estrutural sobre direitos das mulheres, desigualdade, violência, autonomia e representação não ocupa o centro de sua atuação. Isso não significa negar a presença de mulheres de direita na política, mas reconhecer que, em geral, a presidência dessa comissão não aparece como prioridade de seu campo.
No centro político, a situação não é muito diferente. Muitas parlamentares estão mobilizadas por agendas administrativas, eleitorais ou temáticas que julgam mais estratégicas para seus projetos. O debate da Comissão da Mulher, por exigir posicionamento e acúmulo político específico, frequentemente acaba ficando em segundo plano.
Já entre as mulheres da esquerda, existe maior proximidade histórica com essas pautas, mas ainda assim o número das que querem se dedicar intensamente a essa pauta é reduzida. Em geral, demonstram mais interesse aquelas que vieram do movimento social, da militância feminista, dos direitos humanos e das lutas populares. E esse grupo, embora muito qualificado, também é pequeníssimo.
Foi diante desse quadro que o partido fez uma escolha politicamente inteligente e historicamente reparadora e marcante ao indicar Erika Hilton. Sua indicação não surge do acaso, mas da combinação entre disposição, trajetória, preparo intelectual público e compromisso com pautas de dignidade humana. Erika não chega a esse debate como uma pomba suja e decorativa, mas como uma mulher travesti, alguém moldada por experiências dramáticas e concretas de exclusão, resistência e formulação política.
A representação da deputada não é pelo sexo, mas pela capacidade de formular. Algumas críticas insistem em negar sua legitimidade com o argumento de que ela “não é mulher”. Esse raciocínio, porém, além de desrespeitoso, revela a dificuldade de parte da sociedade em compreender a pluralidade das experiências femininas brasileiras. Erika Hilton é uma mulher travesti, e é justamente essa vivência que amplia a potência de sua presença. Sua atuação pode enriquecer a Comissão com escuta, sensibilidade social e coragem política para agir.
Defender sua participação, acredito, não é apagar diferenças, mas afirmar valores positivos como disposição, competência, conhecimento, compromisso, representação, dignidade e abertura democrática. Quando quase ninguém quer assumir uma tarefa difícil, ganha legitimidade quem aceita fazê-lo com seriedade. E, nesse sentido, a presença de Erika Hilton pode representar a vanguarda para o Brasil pelo fato inovador e do avanço político maduro: o de compreender que a defesa das mulheres também pode se fortalecer quando incorpora trajetórias historicamente marginalizadas, sem medo, sem caricatura e com responsabilidade pública.