
Grupo Gay da Bahia
A BIOPOLÍTICA DO ORGULHO: POR QUE RESSIGNIFICAR É UM ATO DE SOBREVIVÊNCIA
Manifesto sobre a transmutação da vergonha em soberania política e saúde coletiva –
28 de junho de 2026
1. A Transmutação do Léxico: Da Soberba à Soberania
Neste 28 de junho de 2026, o Grupo Gay da Bahia (GGB) convoca a sociedade a uma reflexão profunda sobre a semântica da nossa existência. Historicamente, a palavra “orgulho” foi capturada pelo léxico moral e religioso, sendo confinada à categoria da soberba, do pecado e da arrogância. No entanto, para as populações LGBT+, a ressignificação deste termo não foi um exercício de vaidade, mas uma estratégia biopolítica de sobrevivência. Onde o sistema de opressão, estruturado pelo racismo e pela LGBTfobia, impunha a vergonha como ferramenta de controle, silenciamento e produção de morte, nós erguemos o orgulho como o antídoto clínico fundamental.
A vergonha é o principal dispositivo da necropolítica; ela desarticula os laços comunitários e induz ao autoextermínio simbólico e físico. Ressignificar o orgulho é, em última análise, um ato de soberania política. Enquanto a vergonha opera como um dispositivo de adoecimento mental e isolamento social, o orgulho atua como um escudo de proteção psicossocial. Ele retira o sujeito da condição de “patologia” e o reposiciona como um cidadão pleno. Como bem assevera o antropólogo e fundador do GGB, Luiz Mott, em sua trajetória decolonial: “Não é crime ser homossexual, não é pecado e não é doença. É somente o preconceito”. Para Mott, a afirmação da identidade é o primeiro passo para a desconstrução das estruturas de poder que tentam nos apagar através do epistemicídio e da marginalização.
2. O GGB como Sentinela das Liberdades e a Ciência da Resistência
A trajetória do GGB é o testemunho vivo desta ressignificação. Desde a nossa fundação em 1980, atuamos como a sentinela das liberdades no Brasil. O marco de 1985, quando lideramos o movimento que forçou o Conselho Federal de Medicina a retirar a homossexualidade do rol de patologias, foi a materialização política desse orgulho. Ao despatologizar nossos corpos, o GGB não apenas alterou um código médico; ele devolveu a soberania psíquica a milhões de brasileiros.
A resistência que operamos não é meramente reativa, ela é fundamentada em uma ciência da resistência. Luiz Mott reforça a necessidade de olhar para trás para caminhar adiante: “Nossa ancestralidade é a prova de que sobrevivemos a todos os projetos de extermínio. A história da homossexualidade cala a boca dos ignorantes, pois mostra que sempre estivemos aqui, construindo civilizações, artes e saberes”. Esta perspectiva de Intelectual Orgânico nos permite entender que o orgulho é uma tecnologia ancestral de preservação da vida, transmitida por aqueles que, antes de nós, recusaram o armário como destino.
4. Orgulho como Estratégia Interseccional de Saúde Coletiva
Para um ativista de Saúde Coletiva, o orgulho é um determinante social de saúde de primeira ordem. Uma comunidade que se orgulha de sua trajetória é uma comunidade que se cuida, que ocupa espaços de controle social e que exige políticas públicas estruturantes. Este orgulho é indissociável da luta antirracista; ele reconhece que a vulnerabilidade é acentuada pelo racismo estrutural, que impõe às pessoas LGBT+ negras uma dupla camada de exclusão.
A emancipação só é possível através da interseccionalidade ativa. Não há saúde coletiva sem o enfrentamento da LGBTfobia, assim como não há orgulho pleno sem a erradicação do racismo. Como pontua Luiz Mott: “A nossa luta é uma só: pelo direito de ser, existir e amar sem o peso da opressão científica ou religiosa”. O orgulho, portanto, é a nossa maior tecnologia de resistência. Ele é a recusa definitiva de morrer de vergonha e a afirmação inegociável do direito à vida. Em 2026, continuamos em marcha, transformando o estigma em dignidade, a exclusão em poder político e a ciência em ferramenta de libertação.
5. O Legado de Luiz Mott: Intelectualidade Orgânica e Vanguarda Global
A trajetória do GGB é indissociável da obra de Luiz Mott, um intelectual orgânico cuja visão antecipou em décadas os debates contemporâneos sobre interseccionalidade e direitos civis. Mott não apenas fundou uma organização em 1980, em plena ditadura militar; ele fundou uma nova forma de pensar a brasilidade. Sua atuação na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) entre 1981 e 1985 foi um exercício de desobediência epistemológica, desafiando a medicina a abandonar o estigma.
Como Mott frequentemente assevera: “O GGB não é apenas um grupo de pressão, é uma usina de produção de novos sentidos para a vida humana. Nossa luta é para que o amor deixe de ser um caso de polícia ou de psiquiatria e passe a ser um valor civilizatório fundamental”. Sua obra, que mapeia a inquisição e a resistência homossexual desde o período colonial, posiciona o Brasil no centro do debate global sobre direitos humanos. Mott compreendeu, antes de muitos, que a saúde pública para a população LGBT+ começa com a derrubada dos muros do armário, que ele define como “a mais insalubre das prisões”.
6. Geografia do Cuidado: Salvador, Periferias e a Rede de Proteção
A atuação do GGB em Salvador, a “Roma Negra” exige uma análise territorial profunda. A nossa sede não é apenas um endereço administrativo, mas o epicentro de uma geografia do cuidado que se estende às periferias mais vulnerabilizadas. O Centro de Referência LGBT Vida Bruno e o Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil operam como nós vitais de uma rede de proteção à vida que desafia a omissão da sociedade.
O Observatório cumpre a função técnica de transformar a dor em dado político, combatendo a invisibilidade que precede o extermínio. Nas periferias de Salvador, onde o racismo institucional e a LGBTfobia se cruzam de forma letal, o GGB atua na base, promovendo a vigilância em saúde e o acolhimento psicossocial. Entendemos que a vulnerabilidade não é inerente aos nossos corpos, mas produzida por um território que nos nega o acesso à cidade. O Centro Vida Bruno, ao oferecer suporte jurídico e técnico, inverte a lógica da violência, transformando o trauma em articulação comunitária e resiliência territorial.
7. Justiça e Segurança Pública (2026): A Sentinela contra LGBTfobia e Racismo Institucional
No horizonte de 2026, o GGB intensifica sua atuação técnica nos espaços mais áridos do poder: o Sistema Prisional e o Judiciário. Nosso foco e na ADPF 347 é estratégico. Monitorar o “estado de coisas inconstitucional” das prisões brasileiras, onde a população LGBT+ é submetida a uma dupla pena: a privação de liberdade e a tortura sistemática da identidade.
Dentro do Plano Pena Justa, o GGB atua como uma sentinela contra o racismo institucional e a transfobia estatal. Exigimos que a custódia do Estado não seja um salvo-conduto para o abuso. Nossa intervenção foca em:
- Vigilância Rigorosa: Garantir que a alocação de pessoas trans e travestis respeite a identidade de gênero, conforme as decisões do STF.
- Saúde Prisional: Implementar protocolos de saúde que reconheçam as especificidades da população LGBT+, combatendo o descaso terapêutico.
- Justiça Criminal: Atuar na reforma dos processos de segurança pública para que a orientação sexual e a identidade de gênero deixem de ser marcadores de suspeição.
Para um Estrategista de Saúde Coletiva, a prisão não pode ser um hiato nos direitos humanos. A Justiça Criminal deve ser confrontada com a realidade de que a dignidade humana é indivisível e inalienável.
8. Conclusão Manifesto: O Orgulho como Soberania Inegociável
Este manifesto é uma convocação à ação. Em 2026, o Grupo Gay da Bahia declara que o tempo da concessão acabou. O orgulho que ostentamos não é uma mercadoria, nem uma celebração efêmera de calendário; é a nossa soberania inegociável. É a recusa definitiva de aceitar as migalhas da tolerância quando o que nos cabe é o banquete da cidadania plena.
Nossa luta é uma interseccionalidade ativa. Não há orgulho sem o enfrentamento do racismo que encarcera nossos irmãos negros; não há saúde sem a proteção das nossas irmãs trans nas periferias; não há justiça enquanto o sistema punitivo for uma máquina de moer dissidentes.
Como pontua o mestre Luiz Mott: “A nossa existência é o nosso maior ato político”. Que este 28 de junho seja o marco de uma nova era, onde a ciência, a política e o afeto se unam para garantir que nenhum de nós precise morrer de vergonha para que o mundo aprenda a nos respeitar. Somos a memória que não se apaga e o futuro que já começou.
Pela vida, pela liberdade e pela soberania de ser quem somos.