
Roteiro turístico e etnográfico pelas vozes e memórias LGBT+ que as ruas do Centro Antigo de Salvador guardam em silêncio.
Salvador guarda uma história LGBT que remonta aos primeiros séculos da colonização. Documentos da Inquisição e outras fontes revelam homens e mulheres acusados de sodomia, relações homoeróticas e transgressões de gênero, registrando amores, encontros, perseguições e resistências. O roteiro recupera essa memória em seis pontos do Centro Histórico, associados a personagens documentados principalmente nos séculos XVI e XVII.

Mapa das localidades
REALIZAÇÃO
Prof. DR.Luiz Mott, Professor Aposentado de Titular de Antropologia-Fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB).
Marcelo Cerqueira – Presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB)
Jaime Nascimento, Professor convidado.
CONTATOS
Luiz Mott – WhatsApp: 71 98746-4830
Marcelo Cerqueira – WhatsApp: 71 99989-4748
Grupo Gay da Bahia (GGB) – Rua Frei Vicente, 25 – Pelourinho, Salvador
PARADA 1 — MOSTEIRO DE SÃO BENTO
FREI LUIZ MOREIRA — século XVII
Frei Luiz Moreira era monge beneditino, tinha 42 anos e ocupava posição de grande prestígio dentro da Igreja: era letrado, pregador, Examinador das Ordens Militares e Abade Primacial da Ordem de São Bento. Residiu durante três anos no Mosteiro de São Sebastião, na Bahia. Sua história chegou até nós porque confessou perante a Mesa do Santo Ofício de Lisboa práticas homoeróticas com oito parceiros, quase todos jovens em torno dos vinte anos.
Entre eles estava Jorge, mameluco de 18 anos e criado do abade, com quem manteve relações durante quatro ou cinco meses. Moreira descreveu aos inquisidores encontros sexuais em sua própria cela, durante o dia e à noite, e também nas fazendas pertencentes ao mosteiro. Outro parceiro foi Manoel de Bairros, estudante de 18 anos, com quem a relação teria durado cerca de um ano. Houve ainda Frei Manoel Cabral, monge de 20 anos, natural do Rio de Janeiro.
O depoimento revela que o Mosteiro de São Bento não era apenas cenário religioso: suas celas e propriedades aparecem também como espaços de encontros homoeróticos. O próprio abade declarou que, além da sodomia, praticava com seus parceiros masturbação e “coxeta”. Sua trajetória permite penetrar numa dimensão raramente lembrada da vida conventual da antiga Salvador: desejos e relações sexuais conviviam com a disciplina religiosa e podiam cair sob a vigilância do Santo Ofício.
LUIZ DELGADO — 1690
Luiz Delgado era violeiro e estanqueiro de tabaco e vivia em Salvador. Seu nome aparece associado ao soldado José Nunes, morador na região da Fonte de São Francisco, também conhecida como Fonte do Sapateiro. Em 1690, os dois ficaram ligados a um episódio ocorrido nos fundos do Mosteiro de São Bento, transformando esse lugar num dos pontos expressivos da geografia sodomítica da cidade.
Segundo a documentação reunida por Luiz Mott, testemunhas observaram que Luiz Delgado e José Nunes “saíram mui suados” de trás do muro do convento, numa parte arruinada e coberta de arvoredo. A circunstância despertou suspeitas porque ambos já carregavam, segundo a fonte, “má fama” de cometer o chamado pecado nefando.
A documentação registra ainda que corria em Salvador a notícia de que José Nunes recebera um anel de ouro de seu “amante benfeitor” e de que Luiz Delgado pagava o aluguel da casa onde o soldado morava. Presentes e ajuda econômica sugerem vínculos que ultrapassavam um encontro ocasional.
O episódio mostra também como determinados espaços urbanos favoreciam encontros discretos. O muro arruinado e o arvoredo nos fundos de São Bento ofereciam relativa proteção aos olhos públicos. Muito antes dos modernos espaços de sociabilidade gay, os documentos já permitem reconstruir uma cartografia homoerótica de Salvador.
7.1. Camada 1: Os Fatos
Violeiro português degredado para a Bahia por sodomia. Em Salvador, sua habilidade musical permitiu-lhe transitar entre diferentes estratos sociais, apesar do estigma de “degredado”.
7.2. Camada 2: O Degredo como Punição
A Bahia era usada como depósito de “indesejáveis” da metrópole, criando uma sociedade de fronteira onde a norma era constantemente negociada.
7.3 a 7.10 Camadas 3 a 10: O Violão como Metáfora
Sua vida ilustra a melancolia do exílio e a busca por pertencimento em uma terra estranha, onde a arte era um dos poucos espaços de manifestação da sensibilidade dissidente.
PARADA 2 — IGREJA DA AJUDA
PAULA DE SIQUEIRA — 1591–1592
Paula de Siqueira tinha cerca de 40 anos, era cristã-velha e morava na Rua de São Francisco. Compareceu perante a Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia, em 1591, e confessou sua relação com Felipa de Sousa, mulher casada que vivia perto da Igreja da Ajuda.
Segundo Paula, Felipa começou a lhe enviar cartas de amor, recados e presentes, acompanhados de beijos e abraços. Essa aproximação durou cerca de dois anos. A própria Paula declarou ter compreendido que Felipa nutria por ela uma “ruim pretensão”, expressão inquisitorial que revela o olhar repressivo lançado sobre o desejo entre mulheres.
Em certo domingo, Felipa levou Paula para dentro de sua câmara e fechou a porta. Ali mantiveram relações sexuais várias vezes pela manhã e novamente depois do jantar. O depoimento descreve explicitamente o contato entre seus corpos e registra que Paula assumia a posição que os inquisidores identificavam como masculina. É uma das descrições mais detalhadas de relações sexuais entre mulheres preservadas pela documentação inquisitorial do Brasil colonial.
Paula também foi acusada pelo padre Baltazar de Miranda de ter lido o Livro de Diana, de Jorge de Montemayor. Em 20 de janeiro de 1592, foi recolhida à prisão juntamente com outras mulheres. Cinco dias depois, sua sentença foi publicada na Sé da Bahia diante do bispo, das autoridades e de “muita gente do povo”.
PARADA 3 — LADEIRA DA MISERICÓRDIA
XICA /” FRANCISCO” MANICONGO — 1591
Francisco Manicongo era uma pessoa africana escravizada por Antônio Pires, sapateiro que morava “abaixo da Misericórdia”, em Salvador. É nesse ponto preciso da cidade que a documentação inquisitorial de 1591 permite localizar uma das personagens mais discutidas atualmente na história LGBT brasileira.
Um denunciante declarou ao Santo Ofício que Manicongo tinha entre os africanos da cidade fama de ser “somítigo”. Chamou especialmente sua atenção a maneira como se vestia: usava um pano cingido ao corpo semelhante, segundo ele, ao utilizado no Congo e em Angola pelos chamados quimbandas. O denunciante explicou que esse nome era empregado para homens que, nas relações sodomíticas, desempenhavam o papel sexual considerado feminino.
O aspecto mais revelador é a insistência em sua roupa. Manicongo teria sido repreendido porque não queria usar o “vestido de homem” fornecido por seu senhor. Mesmo depois da advertência, foi visto outras vezes usando o pano à maneira dos quimbandas. Só posteriormente, registra o depoimento, passou a andar vestido como homem.
A fonte inquisitorial o chama Francisco Manicongo. Séculos depois, essa personagem foi recuperada pela memória LGBT e trans brasileira sob o nome Xica Manicongo. Convém distinguir o documento de 1591 das interpretações posteriores. Sua história, porém, permanece extraordinária: no início da colonização, uma pessoa africana escravizada aparece documentada em conflito com normas de gênero e vestimenta impostas pela sociedade colonial.
5.1. Camada 1: Os Fatos
Nascida no Reino do Congo e trazida como escravizada para a Bahia, Xica (registrada como Francisco Manicongo) trabalhava como sapateira na Cidade Baixa. Em 1591, foi denunciada à Inquisição por recusar-se a vestir roupas masculinas e por manter relações com homens. É a primeira travesti documentada da história do Brasil.
5.2. Camada 2: Contexto Inquisitorial
A Visitação do Santo Ofício (1591-1595) buscava extirpar a heresia e a “sodomia” na colônia. Xica foi alvo direto dessa vigilância moral que associava a dissidência de gênero à possessão demoníaca ou à barbárie não-europeia.
5.3. Camada 3: Território e Trabalho
Sua presença na Cidade Baixa e no Pelourinho revela a circulação de corpos dissidentes nos centros econômicos. O ofício de sapateira conferia-lhe uma autonomia relativa, subvertida pela imposição do traje binário.
5.4. Camada 4: Identidade e Resistência
Ao adotar o “quimbebe” (vestimenta africana) e comportar-se como mulher, Xica operou uma dupla resistência: contra a desumanização da escravidão e contra a imposição de gênero do colonizador.
5.5. Camada 5: Símbolo Contemporâneo
Hoje, Xica é o nome de coletivos de travestis negras e foi tema central do Carnaval Carioca de 2025 (pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti), simbolizando a ancestralidade trans no Brasil.
5.6 a 5.10: Camadas 6 a 10: Legado Político
Xica Manicongo fundamenta a luta por direitos humanos ao provar que a diversidade de gênero não é uma “importação moderna”, mas uma presença ancestral que desafiou os inquisidores do Brasil Colônia, no Terreiro de Jesus.
PARADA 4 — PALÁCIO DOS GOVERNADORES / PRAÇA MUNICIPAL
2.DIOGO BOTELHO — 1618
Diogo Botelho foi Governador e Capitão-Mor da Bahia, chegando a Salvador em 12 de maio de 1602 e governando até 1º de fevereiro de 1607. Sua presença neste roteiro decorre de um impressionante depoimento prestado ao Santo Ofício em 12 de setembro de 1618.
Naquele dia, Fernão Rois de Souza, cristão-velho, 25 anos, cavaleiro fidalgo e antigo pajem do governador, apresentou-se ao visitador Marcos Teixeira. Declarou que, cerca de catorze anos antes, quando servia Botelho, o governador o tratara inicialmente com “mimos e favores” e depois o levara para a cama. Fernão afirmou que a primeira relação ocorreu contra sua vontade e por medo de ser morto, registrando uma relação marcada por coerção e enorme desigualdade de poder.
Segundo Fernão, as relações continuaram durante cerca de dez anos. Em Salvador, ocorreram em duas residências utilizadas pelo governador: uma no Terreiro do Colégio e outra nas Casas del Rei, onde funcionava a Relação. Declarou ter praticado sodomia com Botelho quinze ou vinte vezes e acrescentou que o governador teria mantido relações com outros cinco pajens e um marinheiro flamengo.
A história leva a sodomia documentada ao próprio centro do poder colonial. O Palácio e as Casas del Rei tornam-se também lugares onde documentos inquisitoriais permitem localizar relações sexuais entre homens atravessadas por hierarquia, dependência e poder.
4.1. Camada 1: Os Fatos
Nascido na Aldeia Galega do Ribatejo (Montijo), Portugal, Diogo Botelho foi o oitavo governador-geral do Brasil. Governou a Bahia e o Estado do Brasil entre 1602 e 1608, estabelecendo-se no Pelourinho, então Sede Administrativa da Colônia.
4.2. Camada 2: A Defesa da Bahia
Em 1604, liderou com sucesso a defesa de Salvador contra o ataque da frota do pirata holandês Paulus Van Caarden, consolidando o poder militar português no território baiano.
4.3. Camada 3: Alianças de Corte
Sua ascensão política foi estratégica: sua nomeação ao cargo de governador só foi possível após seu casamento com Maria Pereira, irmã de Pedro Álvares Pereira, influente secretário da corte dos Habsburgo.
4.4. Camada 4: O Passado Militar
Botelho foi um veterano de guerra. Combateu na histórica Batalha de Alcácer Quibir ao lado do Rei Dom Sebastião, onde foi ferido e mantido cativo, experiência que moldou seu perfil autoritário. Já o Monarca não teve a mesma sorte, e acabou morto, o que deu início a um dos períodos mais politicamente confusos e tortuosos da história administrativa da Coroa Portuguesa
4.5. Camada 5: Posicionamento Político
Durante a crise sucessória portuguesa, tomou partido pelo Prior do Crato, demonstrando sua inserção nas complexas disputas de poder da Península Ibérica antes de servir à União Ibérica.
4.6. Camada 6: Sede do Poder
Sua presença no Pelourinho simboliza a institucionalização do governo. O bairro não era apenas moradia, mas o centro nevrálgico de onde emanavam as ordens de controle da colônia.
4.7. Camada 7: O Contexto Seiscentista
A Bahia de Botelho era um laboratório de tensões entre a exploração econômica, a defesa territorial e a vigilância moral rigorosa sobre a população.
4.8. Camada 8: Poder e Inquisição
Como governador, Botelho representava o braço secular que coexistia e, muitas vezes, colaborava com o braço espiritual da Inquisição, garantindo que a ordem social fosse mantida através do medo e da punição.
4.9. Camada 9: Rigor Histórico e Transparência
Nota de Honestidade Intelectual: Não há qualquer documentação histórica que comprove que Diogo Botelho fosse LGBTQIAPN+. Ele é incluído nesta cartografia como a personificação do Poder Colonial que estabeleceu as normas de repressão contra as quais as dissidências aqui listadas tiveram que resistir.
4.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao olhar para as sedes de governo no Centro Histórico, veja em Botelho a estrutura do Estado: o poder que organiza a cidade, mas que também define a quem pertence e quem deve ser punido no pelourinho central.
3.ANTÔNIO LUÍS GONÇALVES DA CÂMARA COUTINHO — 1690–1694
Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho governou o Estado do Brasil entre 1690 e 1694. Pertencia à elite política portuguesa e foi elogiado por contemporâneos por sua atuação administrativa. Entretanto, sua memória ficou também ligada às violentas sátiras de Gregório de Matos, que o acusou de manter relação íntima com Luiz Ferreira de Noronha, capitão de sua guarda.
Aqui a natureza da fonte é fundamental. Diferentemente de outros personagens deste roteiro, Câmara Coutinho não aparece nesse material confessando sodomia perante a Inquisição. A acusação está sobretudo no terreno da sátira política e sexual, utilizada para atacar publicamente o governador.
Gregório de Matos explorou repetidamente o tema. Perguntava ironicamente se o rei teria mandado o governador ao Brasil para não dormir com mulheres, mas com seu criado, e chegou a aproximar Câmara Coutinho e Luiz Ferreira das cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra. Em outro poema, invocou diretamente a Inquisição e desejou que ambos fossem queimados.
Esses versos demonstram como a acusação de sodomia funcionava também como poderosa arma de desmoralização política no século XVII. Não constituem, isoladamente, prova de que a relação sexual tenha ocorrido, mas documentam a circulação pública dessa fama. Câmara Coutinho representa, portanto, outro tipo de fonte para a história LGBT: a fama, o rumor e a sátira.
PARADA 5 — TERREIRO DE JESUS / COLÉGIO DA COMPANHIA
4.FELIPA DE SOUSA — 1591–1592
Felipa de Sousa era costureira, natural de Tavira, no Algarve, tinha cerca de 35 anos, era casada com Francisco Pires e não tinha filhos. Na Salvador de 1591, “ganhava sua vida pela agulha”. Seu nome entrou definitivamente na história quando a Primeira Visitação do Santo Ofício revelou suas relações amorosas e sexuais com outras mulheres.
Uma das mulheres relacionadas a Felipa foi Paula de Siqueira. A confissão de Paula registra uma aproximação que durou aproximadamente dois anos, com cartas amorosas, recados, presentes, beijos e abraços antes dos encontros sexuais. Felipa aparece, portanto, não apenas como participante de relações físicas, mas como mulher que cortejava e manifestava desejo por outras mulheres.
Sua trajetória ajuda a revelar uma rede de mulheres que amavam e desejavam outras mulheres na Salvador quinhentista. A documentação inquisitorial, embora produzida para vigiar e punir, acabou preservando involuntariamente fragmentos de suas intimidades.
Felipa foi processada pelo Santo Ofício e submetida à humilhação pública, sendo açoitada na porta da Sé da Bahia. Séculos depois, seu nome tornou-se referência internacional da memória lésbica. Uma mulher cuja sexualidade foi registrada para condená-la passou a ser lembrada como símbolo da resistência e da história LGBT brasileira.
6.1. Camada 1: Os Fatos
Costureira portuguesa residente em Salvador, Felipa foi denunciada por “práticas nefandas” com outras mulheres. Confessou seus afetos sob pressão, sendo condenada a penas públicas humilhantes e ao degredo.
6.2. Camada 2: A Sodomia Feminina
Diferente da sodomia masculina, o lesbianismo era visto como uma “impossibilidade” biológica que desafiava a lógica patriarcal de que o prazer dependia do falo.
6.3. Camada 3: O Silenciamento
O caso de Felipa é raro, porque a história das mulheres foi duplamente apagada: pelo gênero e pela orientação sexual.
6.4 a 6.10 Camadas 4 a 10: Ícone Lésbico
O Prêmio Felipa de Sousa é hoje uma das maiores honrarias internacionais para ativistas dos direitos humanos LGBTQIAPN+. Ela transforma o Pelourinho em um espaço de memória lésbica fundamental.
5.JORGE MONIZ — 1620
Jorge Moniz tinha 27 anos, era cristão-novo e estudante de Filosofia no Colégio da Companhia de Jesus da Bahia. Em 1620, seu nome aparece associado a um episódio de sodomia ocorrido na região central deste roteiro, em casas situadas “de fronte da Sé”.
Segundo o documento reproduzido no roteiro de Luiz Mott, Jorge Moniz declarou ter cometido o “pecado de sodomia” com João d’Albuquerque. Os dois teriam mantido relações sexuais “por duas ou três vezes”. A fonte descreve diretamente a penetração anal, detalhe exigido pelo procedimento inquisitorial para determinar juridicamente se havia ocorrido o crime de sodomia.
Sua condição de estudante é especialmente interessante. O Colégio dos Jesuítas era um dos grandes centros intelectuais da Salvador colonial. A presença de Jorge Moniz demonstra que os estudantes também faziam parte da população masculina envolvida em relações homoeróticas documentadas pelo Santo Ofício.
Sua origem cristã-nova acrescenta outra dimensão. Numa sociedade marcada simultaneamente pelo controle religioso da sexualidade e pela perseguição aos descendentes de judeus convertidos, Jorge Moniz ocupava posição particularmente vulnerável diante da Inquisição. Sua história devolve vida ao antigo Terreiro do Colégio: jovens estudantes também estudavam, encontravam-se, desejavam-se e procuravam espaços privados nas casas vizinhas à Sé.
PARADA 6 — PRAÇA DA SÉ / ANTIGA SÉ
6.MARCOS TAVARES — 1593
Marcos Tavares, mameluco, pertence à primeira geração de personagens da história sodomítica documentada em Salvador. Sua trajetória está ligada à atuação da Primeira Visitação do Santo Ofício e culminou em 1593, quando sofreu punição pública no espaço da antiga Sé.
Sua condição de mameluco é historicamente relevante. A documentação reunida para o roteiro mostra a diversidade social dos acusados de sodomia na Bahia colonial: aparecem escravizados, mamelucos, estudantes, pajens, sacerdotes, mercadores, governadores e membros das elites. O levantamento de Luiz Mott registra onze mamelucos entre as categorias sociais identificadas.
Em 19 de agosto de 1593, Marcos Tavares participou do auto público realizado na Sé. No dia seguinte, foi açoitado pelas ruas de Salvador e condenado ao degredo por dez anos para São Cristóvão, em Sergipe.
A pena tinha função exemplar. Não bastava punir o condenado: era preciso expor seu corpo diante dos habitantes, convertendo as ruas em extensão do tribunal. Assim, a Sé não foi apenas templo religioso. Foi também palco público da disciplina sexual imposta pela Igreja e pelas autoridades coloniais. A trajetória de Marcos Tavares permite compreender como a repressão à sodomia se inscrevia fisicamente no espaço urbano e na memória pública de Salvador.
7.MANOEL DE LEÃO — 1638 / episódio de 1645
Manoel de Leão era ourives e mercador em Salvador e, segundo a documentação reunida por Luiz Mott, tinha na cidade “má fama” de praticar o chamado “mau pecado”. Sua história está diretamente ligada à antiga Sé da Bahia.
O episódio registrado é particularmente expressivo porque teria ocorrido dentro da própria Torre da Sé. Manoel de Leão e Bartolomeu Ferreira foram encontrados praticando masturbação recíproca. A informação chegou até nós pelo testemunho do padre Simão Ferreira.
A localização torna o caso extraordinário. O principal templo católico da cidade, centro simbólico da moral religiosa que condenava as relações entre pessoas do mesmo sexo, aparece simultaneamente como cenário de uma prática homoerótica entre dois homens.
O caso demonstra também a importância da “má fama” na sociedade colonial. Rumores, reputações e comentários podiam transformar comportamentos privados em matéria para denúncias e investigações. O material de base identifica Manoel de Leão com a data de 1638 e, no texto do episódio, situa o encontro no entrudo de 1645; esta edição preserva ambas as indicações tal como aparecem no roteiro histórico utilizado como fonte.
8. PERSONAGEM 5 — ESTÁCIO DE LIMA (SÉC. XX)
8.1. Camada 1: Os Fatos
Estácio Luiz Valente de Lima, Marechal Deodoro, AL, 11 de junho de 1897 – Salvador, 29 de maio de 1984, foi Advogado e Médico Legista Chegou a Salvador em 1916, para permanecer durante toda a sua vida. Professor de Medicina Legal, escritor e cidadão no honorário da Bahia. Foi Presidente da Academia de Letras, da Academia de Medicina, do Conselho Penitenciário e diretor do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. Escritor, publicou livros, teses e ensaios sobre Medicina Legal, Antropologia, Sexologia, Deontologia Médica, Bioética e Folclore. De sua extensa bibliografia constam 22 obras. Tais como, O Estranho Mundo dos Cangaceiros e A Invenção do Sexo, onde catalogou exaustivamente a vida sexual da Salvador dos anos 30.
8.2. Camada 2: A Patologização
Sua abordagem era clínica e higienista, tratando a homossexualidade como “inversão” ou desvio biotipológico.
8.3 a 8.10 Camadas 3 a 10: O Paradoxo Documental
Embora sua intenção fosse o controle social, seus arquivos tornaram-se a fonte mais rica de provas da existência de uma vibrante comunidade LGBT no Pelourinho pré-moderno.
9. PERSONAGEM 6 — VIVI E AMELINHA (ANOS 1930)
9.1. Camada 1: Os Fatos
Um casal de mulheres que vivia abertamente sua relação em Salvador. Foram presas e expostas pela imprensa sensacionalista da época como “anormais”.
9.2 a 9.10 Camadas 2 a a10: O Pelourinho Boêmio
Vivi e Amelinha frequentavam os espaços de sociabilidade do Centro, desafiando a invisibilidade imposta às mulheres lésbicas, humanizando e particularizando as estatísticas de Estácio de Lima.
10. PERSONAGEM 7 — FLORIPES (ANOS 1960-1980): A Alegria da Cidade
10.1. Camada 1: Os Fatos
Floripes, cujo nome de batismo era Benedito Matos, foi a primeira travesti assumida de Salvador e da Bahia. Pobre, negra e homossexual, marcou a vida da capital baiana dos anos 1960 aos 1980. É considerada a primeira travesti assumida da capital baiana, carinhosamente conhecida como “A Alegria da Cidade”.
10.2. Camada 2: O Território e as Festas de Largo
Floripes encantou as festas de largo de Salvador, especialmente a Festa da Conceição da Praia de 1979, onde sua presença era notada e admirada. Suas danças acrobáticas, malabarismos de difícil execução e bordões, a tornaram uma figura inconfundível. A Rua Carlos Gomes, à noite, era o território das travestis nos anos 1970.
10.3. Camada 3: A Inteligência da Sobrevivência
Floripes possuía a inteligência adquirida na luta pela sobrevivência. Nos anos 1970 e 1980, a homofobia era ainda mais severa: sequer era crime, e o preconceito era legitimado na sociedade. Ela enfrentou a transfobia “no braço”, usando sua desenvoltura e performances como forma de se tornar respeitada.
10.4. Camada 4: A Ditadura e a Resistência
Floripes enfrentou a Ditadura Militar, transformando cortinas em vestidos e construindo sua identidade em um contexto de repressão extrema. Sua existência pública era, em si, um ato de resistência política.
10.5. Camada 5: A Morte Brutal (3 de julho de 1984)
Em 3 de julho de 1984, Floripes foi assassinada de forma brutal e covarde. O assassino revelou sua motivação: “Não tinha nada contra ele, mas a alegria dele me incomodava”. Ela foi morta apenas por ser feliz, por ousar existir com alegria em um mundo que não tolerava sua identidade.
10.6. Camada 6: A Lenda Urbana
Floripes tornou-se uma lenda urbana de Salvador, uma figura enigmática e de força silenciosa que marcou a cena cultural da cidade. Sua memória é preservada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), que publicou o artigo “Você Sabe Quem Foi Floripis?”.
10.7. Camada 7: A Homenagem no Teatro
A peça “A Mulher de Roxo e Outras Histórias da Bahia”, que resgata lendas urbanas e personalidades da Bahia, inclui Floripes como personagem, interpretada pelo ator e modelo Regis Spiner, com narração de Léo Kret do Brasil, dançarina trans. A peça foi encenada no Pelourinho (Espaço Cultural Casa 14).
10.8. Camada 8: O Simbolismo da Alegria
A alegria de Floripes era sua assinatura e foi sua sentença de morte. O crime que a vitimou expõe a face mais cruel da transfobia: o ódio à felicidade do outro, à liberdade de ser quem se é. Sua história é um testemunho da violência que historicamente atingiu as travestis no Brasil.
10.9. Camada 9: O Legado
Floripes fundamenta a memória da travestilidade baiana e brasileira. Sua história conecta-se à de Xica Manicongo, quatro séculos antes, provando a ancestralidade e a persistência da resistência trans no território de Salvador.
10.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao caminhar pelo Pelourinho e pela Rua Carlos Gomes, lembre-se de Floripes: a Alegria da Cidade que ousou dançar, brilhar e existir. Que sua alegria, que tanto incomodou seu algoz, seja hoje um convite à celebração da diversidade e um lamento pela violência que ainda mata travestis no Brasil.
Nota de Documentação: Esta é uma figura documentada pela imprensa, pelo GGB e pela memória oral de Salvador, com dados verificáveis (nome de batismo: Benedito Matos; data da morte: 3 de julho de 1984; peça de teatro: “A Mulher de Roxo e Outras Histórias da Bahia”).
11. PERSONAGEM 8 — LUIZ MOTT (1946-): O Arqueólogo da Memória
11.1. Camada 1: Os Fatos
Luiz Roberto de Barros Mott, nascido em São Paulo em 6 de maio de 1946, é Antropólogo, Historiador e Pesquisador. Formou-se em Ciências Sociais pela USP, com mestrado em Etnologia na Sorbonne e doutorado em Antropologia pela Unicamp. É professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da UFBA.
11.2. Camada 2: O Fundador do Grupo Gay da Bahia – GGB
Em 29 de fevereiro de 1980, no Carnaval, fundou o Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga instituição de defesa dos direitos LGBTQIAPN+ da América Latina.
11.3. Camada 3: O Pioneiro da Pesquisa
Sua pesquisa pioneira nos arquivos da Inquisição portuguesa e do IML de Salvador reconstruiu a história da homossexualidade no Brasil Colonial, resgatando personagens como Xica Manicongo, Felipa de Sousa e Luiz Delgado.
11.4. Camada 4: O Dicionário Biográfico
Autor do “Dicionário Biográfico: Homossexuais da Bahia (séculos XVI-XIX)”, obra fundamental que documentou centenas de vidas dissidentes.
11.5. Camada 5: O Ativismo
Decano do movimento LGBT brasileiro, ativista dos direitos civis, reconhecido entre os 500 mais influentes da história da humanidade, pela sua luta.
11.6. Camada 6: O Intelectual de Fronteira
Combina rigor acadêmico com militância, mostrando que a história da homossexualidade “cala a boca dos ignorantes”.
11.7. Camada 7: O Legado Documental
Seus estudos permitiram que este guia existisse, dando nome e rosto a séculos de silenciamento.
11.8. Camada 8: A Conexão com o Pelourinho
O GGB, fundado por Mott, tem sede e atuação ligadas ao território do Centro Histórico de Salvador e à sua memória.
11.9. Camada 9: O Reconhecimento
Professor Emérito, referência internacional em antropologia e história da homossexualidade.
11.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao percorrer o Pelourinho, lembre-se que cada nome resgatado neste Guia é fruto do trabalho incansável de Mott, que ressignificou a documentação existente nos arquivos da repressão em provas cabais e libelos de resistência.
Nota de Documentação: Figura amplamente documentada em arquivos acadêmicos, históricos e na imprensa nacional e internacional.
12. PERSONAGEM 9 — VIVALDO DA COSTA LIMA (1925-2010): O Obá de Xangô
12.1. Camada 1: Os Fatos
Vivaldo da Costa Lima (Feira de Santana, 10 de abril de 1925 – Salvador, 22 de setembro de 2010) foi Antropólogo e professor emérito da UFBA. Formado em Odontologia, dedicou-se aos estudos de Antropologia, destacando-se, entre outros temas, nos estudos da Antropologia da Alimentação e da cultura afro-brasileira.
12.2. Camada 2: O Centro de Estudos Afro-Orientais – CEAO
Um dos fundadores do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da UFBA e um dos principais estudiosos da cultura afro-brasileira.
12.3. Camada 3: O Obá de Xangô
Foi obá (Ministro) de Xangô do Axé Opô Afonjá, Terreiro que a partir dos anos 1930 tornou-se o principal centro difusor da cultura afro-baiana.
12.4. Camada 4: O Estudioso do Candomblé
Autor de “As Famílias de Santo nos Candomblés Jeje-nagôs da Bahia”, obra fundamental sobre as Famílias de Santo e a organização do candomblé.
12.5. Camada 5: A Interseccionalidade
Sua vida une religião, academia e identidade, mostrando a centralidade do candomblé como espaço de acolhimento da diversidade.
12.6. Camada 6: O Diálogo Sul-Sul
Pesquisou na Nigéria, Daomé, Gana e Costa do Marfim, estabelecendo pontes entre as diásporas africanas.
12.7. Camada 7: O Centenário Esquecido
Sua memória não foi homenageada no centenário de seu nascimento (2025), o que resgataria a sua importância.
12.8. Camada 8: O Acolhimento da Diversidade
O candomblé, estudado por Vivaldo, historicamente acolheu corpos dissidentes, sendo um espaço de liberdade em meio à repressão.
12.9. Camada 9: O Legado
Vivaldo da Costa Lima é referência para os estudos afro-brasileiros e para a compreensão do papel do candomblé na formação da identidade baiana.
12.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao visitar os Terreiros de Candomblé e o Pelourinho, reconheça a importância de intelectuais como Vivaldo, que dignificaram as religiões de matriz africana e seus espaços de acolhimento.
Nota de Documentação: Figura amplamente documentada, com vasta produção acadêmica e registros históricos na UFBA e no Axé Opô Afonjá.
13. PERSONAGEM 10 — JULIO CESAR HABIB: O Estilista da Diversidade
13.1. Camada 1: Os Fatos
Júlio Cesar Habib Silva, (Juazeiro, BA, 12 de fevereiro de 1955) é um multifacetado estilista, artista plástico, escultor sacro, decorador, cerimonialista e ativista pioneiro de Salvador. Começou sua carreira como estilista aos 16 anos, e desde então concebeu criações icônicas para celebridades e eventos importantes. Atua fortemente no cenário da alta costura regional com criações exclusivas. Desde 1994 atual como escultor, sendo reconhecido por produzir releituras detalhadas em barro e estuque de imagens sacras e lapinhas, tendo criado obras notáveis como a imagem de São Judas Tadeu, para a Catedral de Jequié-BA, e a imagem de Nossa Senhora da Conceição, para o Elevador Lacerda.
13.2. Camada 2: O Palacete
Abriu seu belíssimo casarão colonial do século XIX, de estilo barroco, fincado na Santo Antônio Além do Carmo, nos arredores do Pelourinho, que se tornou sua Maison de eventos e espaço cultural.
13.3. Camada 3: O Estilista das Noivas
Reconhecido como “estilista das noivas” de Salvador, com 50 anos de história e tradição na moda baiana.
13.4. Camada 4: O Artista Sacro
Sua obra como escultor sacro e artista plástico inclui molduras, espelhos, ostensórios e imagens de anjos, com grande pompa e beleza.
13.5. Camada 5: O Ativista Pioneiro
Reconhecido como ativista pioneiro da comunidade LGBTQIAPN+ de Salvador, usando sua arte e visibilidade para a causa.
13.6. Camada 6: O Cerimonialista
Comanda eventos como a “Passarela da Moda” no Santo Antônio Além do Carmo, movimentando a cena cultural do Centro Histórico.
13.7. Camada 7: O Guardião do Patrimônio
Seu palacete preserva antiguidades e a memória arquitetônica da Salvador colonial, conectando arte, fé e diversidade.
13.8. Camada 8: A Visibilidade
Sua presença pública e sua arte afirmam a presença LGBTQIAPN+ no território do Pelourinho e arredores.
13.9. Camada 9: O Legado Cultural
Habib integra a cena cultural viva de Salvador, sendo responsável por Projetos Culturais como: Projeto Moda de Rua, que visava promover a moda e a arte em bairros de Salvador, e – Exposições de Arte Barroca Brasileira em locais públicos, como a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça da Bahia, mostrando que a diversidade é parte da identidade do Centro Histórico.
13.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao passar pela Santo Antônio Além do Carmo, reconheça na Maison Júlio César Habib a continuidade da presença LGBTQIAPN+ que faz do Pelourinho um território de criação, fé e resistência.
Nota de Documentação: Figura da cena cultural contemporânea de Salvador, amplamente reconhecido como ativista pioneiro e artista multifacetado.
14. PERSONAGEM 11 — CARLOS BASTOS (1925-2004): O Pintor Modernista
14.1. Camada 1: Os Fatos
Carlos Frederico Bastos (Salvador, 12 de outubro de 1925 – Salvador, 12 de março de 2004) foi Pintor, Ilustrador e Cenógrafo, considerado o primeiro grande pintor modernista da Bahia.
14.2. Camada 2: A Formação
Iniciou sua formação artística na Escola de Belas-Artes da Universidade da Bahia em 1944, onde assistiu às aulas de João Mendonça Filho, Raymundo Aguiar e Alberto Valença. Depois, em 1946, transferiu-se para a Escola nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, tendo estudado também na Sociedade Brasileira de Belas Artes, e na Fundação Getúlio Vargas, onde foi aluno de Carlos Oswald, Santa Rosa e Iberê Camargo. Tendo feito aulas particulares Candido Portinari e Heros Martins Gonçalves
14.3. Camada 3: O Modernismo
Foi um dos protagonistas do movimento de renovação da arte baiana na década de 1940, líder do modernismo na Bahia, ao lado de Mário Cravo Júnior e Genaro de Carvalho.
14.4. Camada 4: A Obra
Autor de obras significativas, incluindo o mural da Capela de São João Batista no Parque e Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro e do Painel que do Plenário da Assembleia Legislativa da Bahia. Um dos três maiores muralistas do Brasil.
14.5. Camada 5: O Livro
Editou “Santos e Anjos da Bahia” (1965), com prefácio de Jorge Amado, obra que celebra a religiosidade e a cultura baiana.
14.6. Camada 6: A Resiliência
Uma paralisia levou-o a um período em cadeira de rodas, mas continuou ilustrando livros nas décadas de 1970 e 1980.
14.7. Camada 7: A Sensibilidade
Sua obra, de temas inocentes e lúdicos, influenciada pelo surrealismo, reflete uma sensibilidade singular.
14.8. Camada 8: A Diversidade
Carlos Bastos integra a memória da arte baiana e da presença LGBTQIAPN+ no cenário cultural de Salvador.
14.9. Camada 9: O Legado
Sua obra é preservada em coleções e leilões, e sua memória é celebrada como marco do pioneirismo da arte moderna da Bahia.
14.10. Camada 10: Reflexão para o Visitante
Ao admirar a arte baiana no Pelourinho, lembre-se de Carlos Bastos, que pintou a alma de Salvador com cores de liberdade e sensibilidade.
Nota de Documentação: Figura amplamente documentada como marco do modernismo baiano, com obras em acervos públicos e privados e vasta fortuna crítica.
15. O PELOURINHO: TERRITÓRIO, MEMÓRIA E POVO
15.1. O Primeiro Bairro
O Largo do Pelourinho (oficialmente Praça José de Alencar), carinhosamente chamado de “Pelô”, é o coração do primeiro bairro de Salvador. Sua origem remete ao pelourinho, a coluna de pedra, símbolo do Poder Municipal, utilizado para o castigo público de quem cometia pequenos crimes ou infringia os Códigos e Posturas estabelecidos pelo Casa de Câmara e Cadeia, transformando um símbolo de dor em um marco de resistência cultural.
15.2. Arquitetura e Fé
O bairro concentra um grande número de templos da Igreja Católica, entre os quais a Catedral Basílica, antiga Igreja dos Jesuítas, São Domingos, São Pedro dos Clérigos, São Francisco, a “Igreja de Ouro”, no Terreiro de Jesus. E a Igreja de Nossa Senhora do Rosário às Portas do Carmo, construída pela Irmandade de Homens Negros. O casario multicolorido, restaurado e reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO desde 1985, abriga séculos de histórias em seus sobrados.
15.3. A População e a Vida Viva
O Pelourinho é habitado por uma população vibrante e diversa. É o território da comunidade negra, dos artistas, dos músicos do Olodum, dos mestres de capoeira e das baianas de acarajé. Historicamente, a comunidade LGBTQIAPN+ ocupou suas ladeiras e casarões, encontrando na boemia e nos terreiros de candomblé das redondezas um espaço de acolhimento e espiritualidade.
15.4. Tensão Urbana
Existe uma tensão constante entre a preservação arquitetônica para o turismo e a exclusão social dos moradores tradicionais. O Pelourinho resiste como um bairro vivo, onde a luta pelo direito à moradia caminha junto com a preservação da memória.
16. ROTEIRO DE VISITAÇÃO: CAMINHOS DA VERDADE
| Ponto de Parada | Referência Histórica | Significado |
| Praça Tomé de Souza | Gov. Diogo Botelho | O centro do poder colonial e administrativo da Bahia seiscentista. |
| Ladeira da Misericórdia | Xica Manicongo | Espaço de trânsito entre a Cidade Baixa e o poder colonial na Cidade Alta. |
| Terreiro de Jesus | Inquisição / Felipa de Sousa | Local das leituras de sentenças e autos-de-fé. |
| Largo do Pelourinho | Panorama do Bairro | Símbolo de punição transformado em centro de cultura e resistência negra. |
| Instituto Nina Rodrigues | Estácio de Lima | Onde a ciência tentou classificar e patologizar as identidades. |
| Rua das Laranjeiras | Vivi e Amelinha | Cenário da boemia e da resistência cotidiana no Centro Histórico. |
| Sede do GGB | Luiz Mott | Ponto focal da pesquisa e ativismo LGBTQIAPN+ na Bahia. |
| Axé Opô Afonjá | Vivaldo da Costa Lima | Espaço de fé e acolhimento da diversidade afro-brasileira. |
| Santo Antônio Além do Carmo | Júlio Cesar Habib | Território de arte, fé e continuidade da presença dissidente. |
| Museus e Galerias | Carlos Bastos | Onde a alma de Salvador é pintada com cores de liberdade modernista. |
17. NOTA METODOLÓGICA E FONTES
Este guia é uma realização do Grupo Gay da Bahia (GGB), com o apoio de seus parceiros institucionais, e integra a programação oficial da 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia e da 29ª Semana da Diversidade Cultural de Salvador.
A concepção deste guia inspira-se no lema de Jorge Amado, “Tudo é verdade”, utilizando-o como uma referência literária fundamental que conecta esta pesquisa à tradição narrativa da Bahia, reafirmando o compromisso com a veracidade dos fatos expostos.
O conteúdo fundamenta-se nas pesquisas pioneiras do Prof. Dr. Luiz Mott (UFBA), fundador do GGB e principal fonte documental, cujos estudos nos arquivos da Inquisição e do IML de Salvador permitiram a reconstrução de biografias documentadas. Complementam a base os trabalhos de Vivaldo da Costa Lima (referência nos estudos afro-brasileiros), Carlos Bastos (pintor modernista), Júlio Cesar Habib (estilista e ativista contemporâneo) e Estácio de Lima.
Transparência Histórica: Reiteramos que figuras como Luiz Mott, Vivaldo da Costa Lima e Carlos Bastos são figuras amplamente documentadas em arquivos acadêmicos e históricos. Júlio Cesar Habib é uma figura central da cena cultural contemporânea de Salvador, reconhecido como ativista pioneiro. Diogo Botelho é apresentado estritamente como figura de poder político, sem atribuição de orientação sexual dissidente. O uso de QR Codes visa expandir este conhecimento para além do papel.
Atenção: A terminologia “sodomia” e “inversão” é mantida apenas como registro histórico da época, não refletindo a visão científica ou ética atual.
18. EPÍLOGO — O Pelourinho como altar da verdade e da diversidade
Ao encerrar este percurso, o visitante deve compreender que o Pelourinho não é apenas um monumento ao passado, mas um território em disputa. Este Guia, parte integrante da celebração da 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia e da 29ª Semana da Diversidade Cultural, reforça o vínculo indissociável entre a memória ancestral e a luta contemporânea por direitos.
Reafirmamos aqui que “Tudo é verdade”: cada história narrada neste guia é verdadeira, real, e a diversidade é parte constituinte da verdadeira história de Salvador. Que esta cartografia de memórias verdadeiras, agora ampliada pela tecnologia e pelo rigor documental, sirva de bússola para um futuro onde o direito à cidade e ao afeto seja pleno para todos os corpos.
Salvador, Bahia — 13 de agosto de 2026
Documento elaborado em 13 de agosto de 2026. As informações contidas são de responsabilidade do solicitante.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
MOTT, Luiz. Homossexuais da Bahia: Dicionário Biográfico (Séculos XVI–XIX). Salvador: Grupo Gay da Bahia, 1999.
MOTT, Luiz. Bahia: Inquisição & Sociedade. Salvador: EDUFBA, 2010.
MOTT, Luiz. Roteiro Histórico da Bahia Sodomítica: Ruas, Igrejas, Casas e Palácios relacionados a Personagens LGBT da Antiga Salvador. Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 6 fev. 2020.