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As bichas folclóricas

Foto atribuída a Floripis, Salvador,BA

As bichas folclóricas: rebeldes primitivas da sexualidade brasileira

Luiz Mott

“Não precisavam de palco: a cidade era seu teatro.”

Desde o “Fanchono negro das folias de Olinda”, registrado já em 1594 pela Inquisição como aquele “a que comumente chamam bêbado”, o Brasil conhece personagens homoeróticos que fizeram das ruas espaços de afirmação, espetáculo e conflito. Seu protagonismo não dependia de militância organizada. Na perspectiva de Max Weber, podemos construir um tipo ideal de celebridades populares dissidentes: pessoas reconhecidas pela voz, pelo andar, pela desmunhecação, pelas roupas e pela capacidade de transformar transeuntes em plateia.

No Rio oitocentista, Traviata exibia o rosto bexigoso pintado de branco-pérola e carmim e o andar saltitante; Atanásio circulava pelo Rocio como vendedor ambulante. Babá, negro, pobre, perfumado e de meias coloridas, atravessava as ruas meneando os quadris e revirando os olhos. Sua morte por suicídio, em 1889, inspirou um necrológio de Pardal Mallet, Coelho Neto e Paula Ney, recuperado por Jandiro Koch. A aparente frivolidade dessas coreografias escondia uma audácia: tornar visível o homoerotismo num mundo que o condenava.

No século XX, Gilda oferecia beijo na Boca Maldita de Curitiba e combinava barba, batom e vestido. Zé de Helena, a “Bicha-Mor de Oeiras”, Piauí, era gay efeminado, mas não se travestia; seu sorriso com a mãozinha à boca ficou na memória popular. Madona agitava o centro de Aracaju com dança, humor e provocações. Mauricinho Hippie coloriu Goiânia com roupas extravagantes, bicicleta e intervenções artísticas. Não se trata de uma identidade uniforme nem exclusivamente de travestis.

Florípes, a “Alegria da Cidade”, talvez sintetize como poucas essas apropriações da rua. Nas festas de largo de Salvador, suas danças, seus adereços afro-religiosos e sua irreverência faziam do corpo um acontecimento coletivo. Era personagem familiar da cultura popular baiana, cuja presença desafiava convenções sexuais e sociais. Mas o aplauso não impediu a violência: morreu em 1984, depois de brutal agressão. Também Madona foi morta por espancamento; Gilda faleceu jovem, enquanto Zé de Helena chegou à velhice. Carinho popular e cidadania nunca foram sinônimos.

Essas personagens lembram os *“rebeldes primitivos” do marxista Eric Hobsbawm: transgrediam costumes antes ou à margem de programas políticos explícitos. Não eram necessariamente revolucionárias nem moralmente exemplares. Algumas hostilizavam gays discretos e outras pessoas marginalizadas; bebidas, drogas e conflitos também atravessavam suas vidas. Setores da esquerda contracultural, como ilustra a entrevista de Madame Satã em O Pasquim, por vezes celebraram a bicha extravagante sem defender igualmente a emancipação homossexual.

Eis a contradição: a cidade ria, temia, admirava e por vezes matava quem a obrigava a reconhecer sua própria diversidade. Algumas tiveram comoventes réquiens nos jornais. São VIPs porque deixaram marcas na história, não porque fossem modelos politicamente corretos de virtude cidadã.

Referências centrais: Luiz Mott, Cripto-sodomitas em Pernambuco colonial (2002) e “Zé de Helena, homenagem a um lutador” (2008); Jandiro Adriano Koch, Babá: esse depravado negro que amou (2019); Eric Hobsbawm, Rebeldes primitivos (1959); James N. Green, “O Pasquim e Madame Satã” (2003).

Floripis

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