
Onde o desejo não pôde ser dito, ficou o palco vazio.
O desejo que não pôde ser dito: Belchior, Caetano e Chico sob a ditadura
Por Marcelo Cerqueira*
Há uma pergunta que atravessa a MPB dos anos de chumbo e que raramente é feita com a seriedade que merece: como se canta aquilo que não pode ser dito? Essa é uma função que só mentes geniais podiam desenvolver – e melhor ainda cantando. Eu nasci em 1967 e tinha cerca de 13 ou 14 anos quando ouvi no rádio “Como Nossos Pais”, na voz de Elis Regina. Era o fim do governo Figueiredo. Foi em Irará, no distrito de Saco do Capim, eu puxava água no fim da tarde na casa de tia Tintilia. Eu não sabia o que ela comunicava, mas mexia com algo muito íntimo.
Entre 1968 e 1978, três dos maiores compositores brasileiros escreveram sobre desejo num país onde o desejo dissidente era, ao mesmo tempo, crime, doença e pecado. A resposta de cada um deles revela menos sobre os artistas do que sobre as possibilidades de sobrevivência do desejo sob repressão.
Belchior escolheu o sintoma. Em “Como Nossos Pais” (1976), o verso que deveria responder à pergunta mais íntima é uma fuga: “Você me pergunta pela minha paixão / digo que estou encantado com uma nova invenção”. O eu-lírico não responde – desvia com entusiasmo fabricado. O conflito não é geracional, é interno: ele já não sabe nomear o próprio desejo porque aprendeu a nomear o vazio com a palavra herdada. O “você” sem gênero, o sorriso que não se explica, o encantamento com “invenção” funcionam como sintoma de um desejo que não pode ser dito porque o próprio sujeito não tem vocabulário para ele. O custo dessa estratégia foi a ilegibilidade: há cinquenta anos muita gente canta essa canção sem perceber que ouve uma confissão.
Caetano fez o movimento inverso. Não escondeu o desejo atrás de metáfora – colocou-o na superfície do corpo cantado. “É proibido proibir” não é sobre sexualidade, mas a performance é. O cabelo, o gesto, a voz, o modo de ocupar o palco: o argumento era o corpo. A censura reagiu exatamente a isso, não ao que ele dizia, mas ao que ele era enquanto dizia. É a estratégia do excesso visível, de alto risco e alto retorno: Caetano pagou com exílio e escândalo, mas inscreveu o desejo no corpo público de forma irreversível.
Chico construiu a ausência. Edificou um sujeito lírico heterossexual e usou isso como capa, ou armadura, para falar de outras coisas. O desejo dissidente aparece por omissão estrutural: nos personagens que não existem, nas canções que ele não escreveu. A exceção é a sensacional Geni, de “Geni e o Zepelim” (1978): uma travesti apedrejada pela cidade hipócrita que a procurava à noite. Chico tratou o desejo dissidente como denúncia social, nunca como experiência própria. É a estratégia da delegação: o desejo é falado, mas sempre na terceira pessoa, sempre como vítima, nunca como sujeito desejante.
Há uma hierarquia involuntária nisso. Belchior falou do desejo como quem não sabia que falava; Caetano falou como quem sabia e não podia; Chico falou do desejo dos outros. Os três driblaram a censura. Apenas dois driblaram também a si mesmos.
A diferença entre Belchior e Chico é a mesma diferença entre uma política de saúde que fala sobre a população LGBT e uma que fala com ela. A primeira produz Geni: o corpo dissidente como tema, como vítima, como objeto de compaixão alheia. A segunda produz sujeito. Quarenta anos depois, o Brasil ainda discute se deve falar sobre corpos dissidentes ou deixar que falem por si. A MPB já sabia a resposta – e a deu em três tons diferentes, todos em menor.
Marcelo Cerqueira é historiador, jornalista (DRT 2135-BA) e Diretor Executivo do Grupo Gay da Bahia.
Fontes primárias e referências
Discografia
BELCHIOR. Alucinação. Rio de Janeiro: Philips, 1976. Faixa “Como Nossos Pais”.
BELCHIOR. A Palo Seco. Rio de Janeiro: Philips, 1974.
VELOSO, Caetano. É proibido proibir. Rio de Janeiro: Philips, 1968. Discurso e performance no III Festival Internacional da Canção.
BUARQUE, Chico. “Geni e o Zepelim”. In: Ópera do Malandro. Rio de Janeiro: Philips, 1978.
Bibliografia
BUARQUE, Chico. Ópera do Malandro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde (1960-1970). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
GREEN, James N. Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Unesp, 2000.
MOTT, Luiz. O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
Desejo inominável